sábado, 11 de dezembro de 2010

Contando e cronicando…

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O cultivo de maçãs e as maçãs do cultivo

Eu estava de fato muito ansioso. Muito não, muitíssimo. Foram anos de trabalho, suor, esforço e dedicação em cima de um único projeto: transportar seres humanos. Meus dedos já não mais possuíam unhas, roídas pelo nervosismo que me apossava. Se fosse apenas essa a questão, do transporte, eu estaria muito mais tranquilo, mas o problema era por onde eu desejava transportar o ser humano. Não seria pelo mar, pela terra, muito menos pelo ar, mas seria mesmo por uma linha telegráfica. No princípio, pode até parecer engraçado devido à aparente loucura imaginada, mas confesso que por certos momentos pensei que as dificuldades de um projeto dessa grandeza excederia minhas capacidades intelectuais para propor um desenvolvimento a este engenhoso plano que muitos, ao tomarem conhecimento, chamaram-no de louco, fruto de devaneios, impossível de se realizar.

telegrafoEu porém, coloquei em minha cabeça que isso era possível e que esta gigantesca invenção deveria aos poucos tornar-se uma realidade. Pois bem, a primeira parte a se executar foi transpor para o papel aquilo que eu tinha em mente e criar uma teoria com fundamentos para após tudo isso, para que eu tivesse crédito na praça. Muitas vozes diziam que essa ideia era impraticável, mas eu dava de ombros para toda essa gente. Até que em uma manhã, um ser meio esquelético, alto e magricela, óculos apoiado em um nariz fino, poucos cabelos e mãos nos bolsos, surgiu em minha porta, com uma proposta de patrocínio ao meu projeto. Num primeiro momento estranhei, parecia ser muito milagre para pouco santo. Mas depois de meia dúzia de palavras trocadas, explicou-me que a notícia dessa minha teórica criação havia chegado, junto com os ventos gelados do fim do outono, ao oeste. Pensei, mas não titubeei, e um aperto de mão foi o ato final do acordo que naquele momento firmava com Jobs, que me entregou um cartão e em retribuição dei-lhe uma maçã, de meu próprio pomar, a qual ele deu apenas uma mordida e colocou na maleta marrom. O tempo foi se passando, e na medida em que a areia da ampulheta ia escorrendo, meu projeto aumentava cada vez mais, em detalhe e em dificuldade de execução prática.

A notícia desta minha invenção foi espalhando-se pelos quatro quantos. Primeiro, apareceu um repórter de uma rádio provinciana, destas de baixa audiência e pouca verba, depois, um jornal da cidade vizinha, até que sem eu tomar conta, já estava nas manchetes do Canal 8, o preferido da população da Capital. O prefeito compareceu em minha oficina afim de posar para um retrato ao meu lado e neste embalo, recebi um telegrama do Presidente da República que, ao ver que tudo era mais sério que ele imaginava, pediu cautela no momento dos testes.

Mas eis que o grande dia chegara. Os postes, pontes de apoio das linhas, já haviam sido checados, o fluxo de energia elétrica também. E para a pessoa que seria transportada, construí uma câmara, sob as mesmas propriedades de um telégrafo, mas em dimensões proporcionais não mais a sinais, mas a um ser humano. Tudo parecia estar pronto. Só parecia, pois quando caminhava para o botão verde, alertaram-me que faltava uma coisa, a mais elementar: não existia a cobaia. Eu tinha certeza que havia feito um trato com um suicida para que ele fosse a primeira pessoa a ser transportada no dia de teste, mas tanto era meu pânico de alguma coisa dar errada que eu afirmei, após olhar ao redor, que faltava a cobaia. Um bafafá tomou conta do descampado onde tudo acontecia e eu percebi que as pessoas, vagarosamente, davam passos para trás, levadas pelo medo de serem escolhidas. Transtornado e sem falta de opções, propus que eu mesmo entrasse naquela câmara e fosse transportado. Mas fui impedido por Jobs, que segurou em meu braço e disse que se eu fosse e algum problema surgisse, ninguém saberia resolver. Perguntei-lhe quem poderia ir, e num ato heróico, Jobs se dispôs. A multidão aplaudia. E meu sócio entrou na câmara. Tudo pronto, apertei enfim, com temor e tremor, o botão verde. Muitas faíscas, alguns estalos, um forte barulho e por fim um ruído tão agudo que fez os espectadores taparem seus ouvidos. E Jobs já não mais estava entre nós.

Havia ao meu lado um telégrafo, para eu receber a mensagem de confirmação da chegada da cobaia no fim da linha. Mas só existia o telégrafo, e ele ali permaneceu inerte, sabe-se lá Deus se não até hoje, pois a mensagem nunca chegou. Jobs desapareceu diante da vista curiosa de todos e não reapareceu jamais. Eu fiquei verdadeiramente abalado, e não sabia o que fazer. As autoridades, também não. Fui, depois de muita discussão entre políticos, militares, imprensa e civis, condenado a viver em reclusão total, longe de todos, pois acabei me tornando elemento de alta periculosidade, por um crime que os competentes juízes não sabiam nominá-lo.

O que mais me encabula nestes acontecimentos todos que aqui descrevi de forma incompleta e apressada, é o mistério do fim que levou Jobs. Mas depois que saí do estado de choque, ao arrumar minhas coisas, percebi que não havia mais nmaca-mordida-150x150enhum papel, rascunho, projeto, cálculo e anotações de minha invenção frustrada. Tudo desaparecera misteriosamente e a única coisa que encontrei em cima de minha prancheta foi uma chave, grande e dourada envelhecida, apoiada em cima de um recado que dizia exatamente assim: “Enquanto uns se deleitam no sucesso, outros dormem entre enxadas e arados”. Era o que me faltava, um enigma a esta altura do campeonato, quando eu deveria deixar a cidade. Mas eu sabia de onde era aquela chave. Era do cubículo onde eu guardava as ferramentas que eu usava em meu pomar de maçãs. Apressei-me até lá e tremendo de raiva abri a porta de madeira que não demorou a ranger. Deparei-me simplesmente com um homem estirado no chão, justamente o suicida que eu havia tratado de ser minha cobaia. Parecia que estava dormindo, mas estava morto. E ali não havia mais nenhum enigma, mas simplesmente, em cima de sua barriga, uma maçã. Não uma maçã qualquer, mas uma maçã com uma mordida somente, e do lado direito de quem a olha, como eu a ol hei.

O fato é que a partir deste dia as linhas de telégrafo nunca mais funcionaram. Todos os equipamentos foram trocados por novos, as linhas substituídas por outras, e ainda assim as mensagens ousam não caminhar. E eu aqui, entre quatro paredes em um lugar qualquer, escuro e mal cheiroso, muitos anos depois daquele fatídico dia, resolvi escrever essas linhas neste meu velho e surrado ‘diário de bordo’, dos tempos em que eu ainda não sonhava em transportar o homem para lugar nenhum, para fazer o tempo passar.

Mas espere. Se os telégrafos não mais funcionam, devem ter procurado um novo meio efetivo de comunicação. Essa pulga que pulou atrás de minha orelha me fez correr até a pilha de jornais que, sem ler e nem ao menos passar o olho, eu jogava direto no porão. Lá entre muitas folhas monocromáticas encontrei uma capa que estampava na página principal uma maçã, com uma mordida do lado direito, acompanhada da manchete: “Jobs é o novo homem forte da tecnologia”.

Isso bastou para mim. Através deste jornal, todas as perguntas foram respondidas. E eu nunca mais cultivei maçãs.

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domingo, 31 de outubro de 2010

Esforço

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“Um abismo atrai outro abismo” (Sl 41, 8)

Eu tenho um sonho…

AbismoEsse é o título do discurso de Luther King em favor da igualdade entre negros e brancos. Era mais que sensível a segregação racial nos Estados Unidos dos anos 60 e o clamor que brota de um dos mais aclamados homens que o mundo já viu é um grito em favor da liberdade. É um brado pelos seus ideiais, um desprendimento de forças em defesa de um povo. O dirscurso de Luther King é um dos mais famosos e considerado o melhor discurso estadunidense do século XX, isso porque que suas palavras representam e defendem aquilo que temos de mais importante: um sonho.

Não sou um grande líder, vivo em uma sociedade em que a segregação aparente foi reduzida  de forma considerável. Meu país é tratado como celeiro de união, compatibilidade de miscigenações e diferenças, ainda sendo a realidade diferente do mito exportado. Embora exista esta infinitude de diferenças, eu também tenho um sonho. Como todo os seres viventes, sou alimentado de ideais, de perspectivas, aspirações e desejos. Tenho na alma um anseio sempre crescente de lutar por aquilo que me parece justo e bom para mim e para meus pares. Sonho que nunca está só, pois sempre junto dele caminha a esperança, bela e formosa joia, riqueza ímpar.

Meu sonho pode ser julgado como utópico, surrealista, até mesmo alienado ou ingênuo. Não importam os rótulos que ele possa receber, o que vale é que por ele, pelo meu sonho, eu luto com afinco, garra e determinação. Contudo, trabalhar para que o sonho torne-se realidade palpável, caminhos devem ser trilhados, como o do serviço, da doação, da cooperação, da caridade, da promoção humana.

Essa luta, pela equidade e igualdade, pela constância da paz, pela proteção dos fracos e pela justiça dos injustiçados, exige que meus passos se dirijam a um lugar chamado Igreja. Nela, encontro aquilo que é necessário para batalhar pelo meu sonho, que é agora um sonho comum daqueles que colocaram a mão no arado e passam a lavrar a terra da seara, segundo os ensinamentos de um só mestre, Jesus Cristo.

A adesão à fé, esse desejo de fazer parte de uma família universal exige muito. Exige que sejamos fiéis a ela, à sabedoria do Mestre, à Verdade Revelada, à Tradição, ao Magistério. Minha fidelidade à Igreja tem de ser incondicional, pois a escolha que por ela eu fiz foi por chamado divino que respeitou minha liberdade, meu direito de dizer sim ou não.

Sendo assim, luto conforme a Igreja, com a Igreja, pela Igreja, pois sei que ela é o corpo cuja cabeça é o próprio Cristo. Como tudo que é governado por mão humanas, a Igreja também possui suas falhas e pecados, mas também é santa, e é nesta santidade, vinda do Ungido, que está sua força. Dessa forma, como membro peregrino e itinerante neste mundo, sigo sua moral. E ela me ensina que devo ter sempre posições claras, não ambíguas, não relativas, mas que instruam para o bem.

É dessa forma que me oponho totalmente a tudo aquilo que apresenta risco à vida do ser humano. Desde sua natural concepção até seu declíneo, a vida tem prioridade em nossas lutas, pois é criação do próprio Deus, fruto de um amor incondicional e sem medidas. Por isso devemos atentar-nos com as ameaças que a vida humana sofre constantemente. Temos por obrigação, a partir do momento que decido ser cristão, ser católico, seguir o que a Igreja ensina. Não um radicalismo fundamentalista, mas convição, comunhão e participação.

Escrevo isso pois nosso país está ameaçado por forças que querem acabar com todo o tipo de moral e influência que a Igreja Católica exerce ainda hoje. São forças claramente marxistas, que excluem Deus da vida do ser humano, e definem a religião como o ópio do povo. As influências das trevas, destruídoras, se lançam contra tudo aquilo que já foi construído. Querem primeiro tomar todo o poder e centralizá-lo em mãos únicas. Não é por acaso que a política externa de nossa República anda tão próxima de regimes ditatoriais, como Cuba, Venezuela e Irã. Querem destruir a dignidade do ser humano, querem fazer uma revolução onde os próprios interesses estão em jogo. Querem terminar com a fé, querem instaurar uma cultura de morte.

É nossa missão, irmãos em Cristo, homens e mulheres de boa vontade, lutar contra toda e qualquer ameaça, conta todo governo anticristão. Não podemos entregar nosso país nas mesmas mãos que escreveram planos de destruição, que ainda chamam de planos de desenvolvimento humano. É um plano hediondo, que parte de um governo que quer impor ao povo pontos contrários aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Nós, batizados, temos mais que o dever, temos a obrigação de defendermos nossa fé. Temos que reagir, senão o abismo que já existe será ainda maior. O próprio Cristo nos ensinou que devemos dar primazia aos mais fracos, então porque não lutar por todos os nossos irmãos que necessitam a partir dos ensinamentos do próprio Pobre de Nazaré? O fim da desigualdade humana aliada à promoção da dignidade do homem só é possível com Deus. Fora dEle tudo é vão.

Não quero aqui convencer partidariamento o voto de ninguém, aliás as eleições já chegaram. Mas sim despertar os cristãos à realidade que estamos vivendo. Evangelizar é anúnciar a verdade e denúnciar o erro. Onde está nossa vocação profética? Sabemos pela história que sempre o calar dos bons fizeram com que os maus trinunfassem. Levantemo-nos. Empunhemos nossas mais pacíficas armar. Estejamos atentos, vigiando e orando.

Eu tenho um sonho. Você tem um sonho. A busca deste sonho não acontece quando estamos em oposição a Deus. Por isso, independente dos eleitos deste pleito, serei um soldado de Cristo, disposto a lutar por aquilo que Ele nos ensinou, pelo bem. Lutar, enfim, pelo meu sonho, disposto a enfrentar inclusive o mesmo fim de Luther King.

Edvaldo Betioli Filho

Curitiba, 31 de outubro de 2010 / Eleição Presidencial

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Desde sempre

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100 Desde sempre, para sempre: Corinthians! 100

OgAAAM4kZZnApLh4Gxd8bMlcyOukyv3p2x5USTQTU6Q1kHiI9RvdxYUPd-48XH1YCIaDP7adYWsbUkNlDuayZKZbSo8Am1T1UL4R9RMdNe-XcuKA9fsRfFfeyM17Desde que eu me conheço, desde quando eu sei que sou gente, sei que sou corinthiano. Talvez a consciência de ser corinthiano precede a de ser gente, porque a paixão sempre vem antes de tudo. Na verdade, nasci corinthiano, aliás, em 1990, ano do 1° Brasileiro, e ao passar dos anos, fui sendo seduzido por essa arrebatadora paixão, que não dá margem para a fuga. É como a música “Para todos”, de Chico Buarque: o meu pai é corinthiano, meu avô corinthiano, o meu bisavô corinthiano… É algo de berço, ou melhor, de sangue. Nada melhor para um time que é do povo. Para o povo.

OgAAAB3PMlkipw3DmoaWSzihfAIumPQdAyw9jMY9M3QOKN6jIGj7EObDqnazXrSePZryj4d6l3mgJD8BqNfpOT0A4e0Am1T1UGrhkDDPYLBsPIZJ5kWQXPlYpItDE desde criança já sentia o peso do manto alvi negro, o que significava ser chamado de corinthiano, fazer parte de uma grande família. Porque ser torcedor do Corinthians não é dizer-se simpatizante de uma agremiação qualquer, mas um cidadão da maior nação popular do Brasil e oxalá do Mundo.

E vamos crescendo e aprendendo que, se eu quero ter estampado no peito o distintivo tão distinto, tenho que sofrer, lutar, aguerrir, perder e vencer. Mas sobretudo, amar. Na paz, na OgAAAKHiw4mnHAuiggSxD3CM87IchTdze403_kUnBm26zsANzC3I1Au31FRNSdiJTyXhqJnc9395Vrl2GHZ4xm3I-ioAm1T1UHyTli4JtjWx6nAvaspGAX_e7GMYconcordia, mas com os pés alinhados e a garganta afiada. Pois é pelo grito que tornamo-nos plenamente corinthianos. O grito do gol, do gol do título. Um grito que permanecerá inesquecível quando a faixa transversa o peito ou quando no estádio, no meio da massa, uníssonos vibramos.

Parabéns aos mosqueteiros que passaram pelo relvado, conquistando tantas glórias. Um passado, uma bandeira. Um presente, uma missão. Parabéns à fiel torcida, que faz do time, a cada jogo, sempre mais altaneiro, na certeza de que não é o time que tem uma torcida, mas a torcida que tem um time. 43400859030820101139

Parabéns Corinthians! 100 anos de glórias! Como canta o refrão: Nunca vou te abandonar. Porque aqui tem mais um louco, participante do bando, p equeno bando de 30 milhões. Ser corinthiano é orgulho e r esponsabilidade. Sob o patrocínio de São Jorge, e a força de uma nação: Avante, timão!

Edvaldo Betioli Filho

01 de setembro de 2010

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

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Relâmpago

O compromisso esvaiu-se na dúvida,

Na prepotência, a humanidade.

Diluiu-se a sensibilidade no prazer,

O amor no vácuo.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

No dia dos pais…

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Memórias

(Parte II)

Por qual motivo gostamos tanto de cultivar lembranças e alimentar memórias? Esta interrogação acompanhou-me desde quando escrevi a primeira parte destes relatos pessoais alguns meses atrás, e notei que o campo das recordações é muito mais vasto do que nós imaginamos. Se fizermos esforços concentrados, conseguiremos penetrar naqueles mais profundos recônditos da alma e viajar nas nuvens das sensações humanas que com o tempo vamos concebendo, cultivando e arquivando dentro de nós.

FatherAndSonApraz-me muito relembrar velhos fatos, acontecidos inesquecíveis, pois são eles que nos explicam tanto do presente e nos orientam para o futuro. São as lembranças que mesmo em momentos tão escuros do hoje nos trazem uma luz radiosa vinda do ontem, e nos enchem de alegria. Se contemplarmos bons e saudáveis momentos e nos alegramos por e com eles, é porque foram marcados por uma presença. E quando existe a experiência da presença em algum momento, noutro com certeza a solidão parecerá equivocada.

A presença é peça chave de um quebra-cabeça psíquico-emocional. É parte insubstituível da formação humana, como um oleiro que vai modelando o vaso a partir de um punhado de barro. Novamente, através das letras, quero compartilhar minhas memórias, porque elas são essenciais, e fazem com que nós nos compreendamos e tomemos consciência que somos.

Primeiramente, não posso deixar de lembrar que tive em minha pequena trajetória de vida muitas presenças inigualáveis e excelentes. Foram pessoas que de uma forma ou de outra contribuíram para minha formação com o simples – e complicado – fato de ser ao meu lado. Lembro-me, sobretudo hoje, de alguém que acompanhou meus primeiros passos e em uma linha evolutiva, minhas primeiras opiniões.

Uma de minhas mais caras memórias aconteceu em um agosto. Eu aguardava o resultado do vestibular que havia feito um mês antes. Essa espera sempre é aflitiva, mas não angustiante, pois existe a esperança. E justamente neste dia, fui com meu pai à capital, a fim de realizar mais uma revisão ortodôntica. Minha apreensão não poderia ser maior, logo que no horário marcado para a divulgação da lista de aprovados, estávamos dentro do carro, no meio da estrada, em uma sexta-feira ensolarada. Tentávamos escutar pelo rádio, mas o sinal da freqüência modulada, naquele lugar, era instável. Foi então que meu pai, num gesto para mim inesperado, parou no acostamento para dois nomes depois ouvirmos o locutor anunciar o meu. Foi uma explosão de alegria, comemorado como um gol no estádio – fato que também fui agraciado pela presença de meu pai. Minha felicidade era imensa, mas aumentou ou ver que também meu pai feliz ficara. Estava eu feliz por mim e por ele, afinal, havia ele dedicado-se tanto a mim, a iniciar pelo princípio da vida, que eu sentia que ele simplesmente merecia.

Foi o suficiente para marcar minha vida até os dias de hoje, assim como será até o fim, não me resta dúvida. Então alguém pode ler estas memórias e indagar-se se tudo isso foi tão importante, se disso depende meu amor por ele, ou se somente esta é a lembrança que tenho de meu pai. Absolutamente, não.

Estar perante alguém, encontrar com alguém, viver com alguém, e que sintamos sua presença, tal é o enriquecedor e por que não dizer, o misterioso por excelência. O sentido talvez possa permanecer oculto, mas esse fenômeno da presença é providencial. Nesses momentos captamos a intuição de que somos. Somos pelo amor, pela dedicação, pela entrega e pelo sacrifício do outro por nós. Sentir-se próximo por laços inquebrantáveis faz de nós não objetos, mas seres. Não sendo o ser mais um substantivo, mas um verbo. Alguém amado. Como eu fui e sou pelo meu pai.

Muitos dizem que sou fisicamente semelhante ao meu progenitor. Traços faciais fazem com que seja externa a herança genética que recebi dele. Gabriel Marcel, filósofo francês, dizia que tudo aquilo que se herda, se recebe numa atmosfera de gratidão. Por isso escrevo outra vez minhas memórias, para agradecer mais um ano que passou, por uma vida vivida juntos, com tantos momentos e, sobretudo, presenças inesquecíveis.

Poderia continuar relatando muitos outros fatos, desde comícios sob sol escaldante, passando por tantos problemas de matemática até o apoio incondicional ao meu ingresso à vida religiosa. Mas o que mais me realiza é a presença dele ao meu lado nos dias de hoje: uma mão para acolher, uma palavra para orientar, um ensinamento afim instruir e uma vida pela família a doar.Brothers

Cantou o poeta em seus versos que “toda imagem no espelho refletida, tem mil faces que o tempo ali prendeu, todos têm qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu”. Tenho, de fato, muito de meu pai. E espero, verdadeiramente, poder refletir esses dons a meus inúmeros filhos que num futuro receberei. Já não será uma prole sanguínea, mas isso não impedirá que eu seja espelho daquilo que recebi: superar obstáculos com perseverança, doar seu suor por um objetivo, lutar sempre e desanimar jamais; guardar os seus, ser disponível a quem precisa e, sobretudo, amar sem reservas.

Pai, obrigado por naqueles tempos de estudos e provas me ensinar que é muito melhor não deixar nada para amanhã se pode ser resolvido hoje. Por isso não espero mais para deixar registrado meu tão miúdo agradecimento a uma pessoa tão grande. Pela sua presença, nessa vida que é uma missão, minha sempiterna gratidão. E se alguém um dia me perguntar por que escrevo memórias, responderei simplesmente porque em minha vida houve uma presença. E isto bastará, pois palavras não são suficientes, é necessário sê-lo para outro. Obrigado, pai!

Curitiba, 08 de agosto de 2010

Edval do Betioli Filho

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O faz de conta que acontece…

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O bode e o jardim

 

Qual a dimensão da sua imaginação? Agora não importa que ela seja grande ou pequena, o que vale é você deixar-se levar pelo espírito da fábula. Aqui não há anões, cigarras, formigas ou grilos falantes. Mas existe uma gota da tonalidade acinzentada do cotidiano que apresenta para você, de forma simples, rápida e fácil, a história de um bode em seu jardim. Mas deixo um alerta: não conte essa história para as crianças. Por não haver fadas, encantos e feitiços, e sim um gosto amargo de realidade, talvez você possa privá-las da esperança de um mundo melhor!

bode Tudo começou há algum tempo. Havia um pedaço de terra que aos poucos foi sendo cultivado. Ele não ficava muito longe, nem em “tão, tão distante”. Mas as coordenadas geográficas apontavam para bem debaixo de nossos pés. Ora recebia bons tratos, ora era danificado. E assim, em uma gangorra de bons e maus proprietários, durante anos e mais anos, o jardim foi tomando uma forma, recebendo suplementos, aditivos, e na medida certa, adubado. Na rua, o jardim não estava sozinho, tão pouco no bairro ou na cidade, que era o limite máximo dessas porções de terra. Existiam outros jardins, outras propriedades de tamanhos variados, cada um dentro das capacidades próprias de desenvolvimento.

Alguns possuíam grama mais verde, outros estavam repletos de pragas, muitos ainda eram pequenos, mas bem aplainados, e outros embora grandes, eram por demais acidentados. Todos os jardins ficavam defronte suas respectivas casas, onde habitava a população, que era seu proprietário. Mas eles comungavam de um fato: todos havia um jardineiro.

Estamos diante de um jardim cuja história explica porque chegou até os dias de hoje tão depreciado. Mas de alguns anos para cá, muitas foram as oportunidades para que o jardim florisse e se mostrasse o jardim dos jardins. Umas foram aproveitadas, outras não. Chegou-se a vender para outros proprietários algumas espécies nativas daquele solo, mas o jardim conseguiu, por meio de seu jardineiro, entrar nos trilhos corretos. Para que seu sucessor fizesse a máquina andar, era preciso somente colocar a lenha para a caldeira borbulhar. Aconteceu que todo jardineiro não fica perpetuamente no cargo – uma das riquezas deste jardim, a democracia – e chegou a hora da população, que era a proprietária deste pedaço de terra, escolher o novo jardineiro.

Todos foram convocados, e eis que uma grande surpresa abateu-se sobre a população. Eles não haviam elegido mais um jardineiro, e sim um bode! Oh, como poderia isso ter acontecido? Contudo, se o povo e sua maioria escolheram que assim fosse, que então se seguisse a vida do jardim.

O problema era que, como sabemos, o bode não faz distinção daquilo que vê em sua frente, e trata de empurrar para o estômago tudo o que encontra. Não importa se são rosas, árvores que produzem frutos ou espinheiros. Se ele tem fome, abocanha vorazmente, para algum tempo depois percebermos o resultado: adubo por sobre adubo, fenomenal.

No princípio de seu reinado, o bode começou a mastigar as poucas rosas que havia sido cultivadas pelo jardineiro anterior. Não importava se eram dotadas de beleza, perfumadas ou espinhosas, ele comia ferozmente. Terminada algumas rosas, partiu para as árvores frutíferas. Mastigava-as. Aquelas que escapavam de sua gula, dizia ele entre um brinde e um arroto, que era feitio dele, bem sabendo que seu mérito foi só adubar o já plantado. Mas para a sorte da população, algumas poucas sementes voltavam para a terra através de seu natural adubo. E assim, nem tudo ficou destruído, pois enquanto comia o que existia, defecava o que viria a existir. E em algumas pequenas coisas, até que deu certo.

Todos notaram também que o bode permaneceu por lá, na legalidade da lei, mais tempo que deveria. E para justificar sua permanência, quis mostrar serviço. Mas, pobre bode, em seu gigantesco ego e prepotência inimaginável, tratou de meter os chifres em um belo espinheiro pensando que era o bode mais popular de toda a cidade. E imaginando que podia mais que tudo e todos, chegou a cogitar que queria ser presidente da Organização dos Jardins Unidos, só porque um jardineiro certa vez passou as mãos por sobre seus fétidos pelos e disse: “Como são brilhosos!”.

O fato é que o jardim não ficou totalmente devastado, mas perdeu, por culpa do bode, muitíssimas chances de ser o melhor jardim da cidade. A terra era fértil, o clima propício, a localização perfeita. Na tentativa de unir os jardins da Jardinlândia do Sul, foi à derrocada. Tentou até manter acordos com o jardineiro que cultivava e enriquecia espécies atômicas, mas também saiu derrotado e ignorado por todos os outros jardins da urbe. Mas o bode, pobre bode, de tão mínimo que era, conseguiu apenas enfeitar bem seu jardim, uma maquiagem de aparência, entretanto enganadora, e muitos o começaram a aplaudir.

Mas seu tempo de permanecer à frente do terreno já estava chegando ao fim. O que faria ele, para que a enganação continuasse a acontecer e seus amigos, cabritos e cabras, de toda a mal espécie, continuassem a mamar na vaca estatal? Teve então uma brilhante ideia, uma das melhores dos últimos tempos como ele mesmo confessara.

marionete-2Sacou de seu bolso vários retalhos de pano do oportunismo, pegou de sua sombra uma linha da malevolência, passou por dentro da agulha da mentira e alinhavou e costurou um fantoche populista, em formato de mulher, que se encaixou perfeitamente em seus membros. Olhou para aquela sua obra e disse: “Você será a nova jardineira”. E ela começou a ter, pelos poderes mágicos do dinheiro, seus primeiros movimentos.

E o bode começou a passear, por todos os cantos do jardim, até que aquela mentira começasse a parecer verdade de tão repetida que era. E da mesma forma como da primeira vez, com bravatas, carisma e falácias, o bode apresentou seu fantoche feminino ao povo. Como ele não sabia costurar, o artefato ficou mal feito, plenamente remendado e retalhado, sem experiência, opinião e vida própria. Mas isso não importava. O que valia é que ele poderia fazer do boneco uma realidade. E a população, perto da escolha do novo jardineiro, começou a aceitar aquela brincadeira.

O que acontece depois disso, já não se sabe. Ao virar a página, depara-se com ela toda em branco. O certo é que esse espaço aberto será preenchido por letras que continuarão a história dentro de pouco tempo. Esperamos que o fantoche não passe a ser uma coroa para o animal, símbolo de vitória, pois se reinando sob os holofotes o bode já produziu tanto adubo, imagine o que uma marionete, derivada do bode, que cresceu em meio tão lúgubre, poderá fazer. Nem mesmo o pior conto de fadas poderia contar-nos. A única certeza é que se o fantoche do bode conseguir subir a rampa do palácio do jardim e ter a faixa repousada em seu peito, essa fábula jamais terminará com um “e viveram felizes para sempre”.

 

Curitiba, 03 de agosto de 2010

Edvaldo Betioli Filho

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sábado, 31 de julho de 2010

Atenção!

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Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mc 12,17)

 

Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa.

Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir- se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus. Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.

Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.

Na condição de Bispo Diocesano, como r e s p o n s á v e l pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homi- cídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender.

A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).

Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam.

5603a3e7a341ecd300aecc06720841c5Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.

 

D. Luiz Gonzaga Bergonzini

Bispo de Guarulhos 

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Poesia para o inverno…

Um comentário :

Sinfonia

 

Quando a lua a ti não mais brilhar Valsa

sua embarcação não mais flutuar

e seus olhos quiserem se fechar...

... eu ainda estarei a te amar.

 

Quando sua respiração quiser cessar

o sangue em suas veias não mais circular

e sua mente não mais raciocinar...

... eu ainda estarei a te amar.

 

Quando suas palavras não conseguirem rimar

suas mãos não puderem acariciar

e seus pés o solo não mais pisar...

... eu ainda estarei a te amar.

Quando sua voz não retumbante soar

seu doce sorriso amargo ficar

e a lágrima se recusar a rolar...

... eu ainda estarei a te amar.

Quando seu perfume se perder no ar

seu corpo mostrar a primavera passar

e as costas pelos duros fardos se curvar...

... eu ainda estarei a te amar.

Mesmo que o tempo insista em marcar

em nossas faces o seu desenrolar,

serei para sempre seu par

para uma última valsa contigo dançar.

E quando a indesejada chegar,

pensando que poderá por sobre nós triunfar

o que de ti aprendi, a ela vou mostrar:

 

Se tanto te quis e contigo sou feliz

Não seria agora que iria deixar

Pois não demorará muito para que eu possa noutro lugar

Suas mãos entre as minhas tomar, e...

... eternamente estar a te amar.

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terça-feira, 29 de junho de 2010

São João Batista e o Xadrez

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No tabuleiro da vida

São João BatistaO mês de junho normalmente é conhecido em nosso país pelos tradicionais festejos aos santos Antônio, João e Pedro. Uma tradição que se originou do povo rural, de cultura simples, mas não menos importante que as muitas outras, e de uma fé genuína e verdadeira, que acreditava na poderosa força e intercessão dos três santos que, na certa, estavam perto de Deus e dEle poderiam alcançar grandes graças, sendo que ainda hoje, em muitos lugares, a bandeira dos santos é levantada ao som da oração do santo terço.

Quero pedir licença ao santo de Lisboa ou de Pádua, como queiram portugueses ou italianos, e também solicitar que me perdoe o santo portador das divinas chaves, uma vez que hoje gostaria de escrever sobre o Precursor, João Batista.

Primeiramente, peço desculpas aos leitores, pois não possuo cultura exegética ou grande fundamentação teológica, mas as reflexões que faço de São João, ainda que pareçam pueris, são meditações pessoais, catequéticas, como talvez fizesse o Servo de Deus Albino Luciani, o papa catequista.

Em um tabuleiro de Xadrez, com as peças dispostas na ordem correta para o início de uma partida, é o peão aquele que está à frente de todas as outras. Não importa qual é sua origem, se possui ascendência nobre, como os reis, ou se se vestem de preciosidades, como as rainhas. Suas funções podem ser muitas, pode ficar parado para defender certas jogadas passadas ou avançar para ser apoio às futuras. São oito peças idênticas, perfiladas, que não contando o cavalo, são as primeiras a saírem de seus postos, atentas a qualquer ordem. Não está à frente por um desejo nato, ou por vontade do amor próprio de ser o primeiro e principal personagens da batalha que se avizinha, mas está ali para ser o que, ao preparar as jogadas das peças maiores e mais importantes, recebe os primeiros golpes daqueles que vem na direção oposta. O peão caminha, prepara, abre, golpeia, leva ao chão a outra peça. É peça de tropeço, que incomoda. E assim, vai fazendo parte de um plano, de uma estratégia por uma mente maior que a controla, estando disponível a qualquer momento para ser sacrificada, para morrer, inclusive quando chegar ao último espaço, e for trocada por outra peça. Tudo isso, para proteger, auxiliar, colaborar, afim de que o rei jamais seja derrotado.Peão

Não consegui desassimilar a figura de São João Batista a um peão dos jogos de xadrez. Não quero ser vulgar ou herético, esta jamais foi ou será minha intenção, mas são através destas imagens que compreendemos melhor e nos inserimos de uma forma mais completa na sublime história da salvação, tomando consciência do lugar que nos é cabido.

João Batista veio ao mundo algum tempo antes do Salvador, filho de uma mulher estéril, de um casal de velhinhos fiéis, figurando em sua simples ascendência a importância do antigo. Sendo declarado profeta ainda no ventre materno, o nascimento e a missão do arauto da novidade fizeram com que ele estivesse nesta terra algum tempo antes do Messias, por isso, caminha à sua frente, e O anuncia com a humildade de um servo, bradando solitário no deserto, vestido de pele de animal, alimentando-se de mel silvestre e insetos, embora fosse depois proclamado por Cristo o maior nascido de mulher. Foi o primeiro a lançar-se para aplainar o terreno no qual caminharia aquele que João afirmara, na sua humildade, não ser digno de desamarrar as sandálias. E na missão que Deus a ele confiou, partiu para anunciar, converter, batizar, ensinar, denunciar e assim inevitavelmente incomodar. Sempre esteve disposto a doar a sua vida em razão do homem a quem precedia, e ao chegar à última casa, no último espaço de tempo, findando toda a história da Lei e dos Profetas, morreu para que se iniciasse o Novo Testamento e com ele a vitória definitiva, a sentença irrevogável: o triunfo do Rei nos braços do sagrado madeiro.

João Batista é como esta peça do Xadrez. Nós também temos a missão de sermos como os peões: anun ciarmos o Cristo, denunciarmos o erro. Não buscar a primazia do eu próprio, mas o serviço do eu em função do outro. Estarmos sempre dispostos aos planos do Pai, na simplicidade de coração, na constante vigilância e fiel oração esperando, com o caminho aplainado, a sua aguardada e gloriosa vinda, chegando inclusive ao limite da vida, para que o único que vença através de um cheque-mate a derrotar o mal, e reine sempre, seja Cristo. E enfim, para tudo isso, temos ainda uma vantagem: já sabemos por onde começar e para onde ir. Para que o Rei cresça, e o peão diminua.

Edvaldo Betioli Filho

Curitiba, 29 de junho de 2010.

Solenidade de São Pedro e São Paulo

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domingo, 20 de junho de 2010

Ele fez a diferença

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O Defensor da Floresta

Desde pouca idade sempre aprendi que se nós temos direitos, por eles devemos prezar e fazê-los valer. Sejam eles quais forem, com a dimensão que tiverem. Recordo-me que diziam serem os direitos uma conquista de tempos de lutas, do suor de muitos, da dedicação de tantos outros e por isso além de buscá-los deveríamos defendê-los como um patrimônio valioso.

E sempre fiquei atento para encontrar alguém que se encaixasse neste perfil que me apresentavam. A procura não foi das mais simples, mas encontrei uma pessoa que deixou suas impressões em nossa história. Houve nos dias atuais um exemplo de garra e de defesa de seus direitos, um homem que marcou o solo brasileiro com seus passos determinados na caminhada em defesa da preservação de sua terra. Este homem que viveu pela causa da Amazônia e por ela morreu tornou-se defensor e ícone da Floresta.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu no coração da Floresta Amazônica, na pequena Xapuri, no Acre, em 15 de dezembro de 1944. Era filho de seringueiro, e com o pai, pelas incursões na mata, aprendeu o mesmo oficio, antes mesmo de aprender a ler e a escrever. Na maioria dos seringais não havia escolas, e os proprietários das grandes terras não tinham a mínima intenção de criá-las. Por isso, só foi alfabetizado aos 20 anos de idade.

Mas isso não se tornou um empecilho para aquele que viria a tornar-se um grande líder regional. Seu primeiro passo foi ingressar na vida sindical, e em 1975 tornou-se secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir daí participou ativamente das lutas dos seringueiros. Realizou os “empates”, as manifestações pacíficas onde os seringueiros protegiam as árvores do desmatamento com seus próprios corpos. Promovia também diversas ações em defesa da terra dos nativos contra a exploração indevida dos latifundiários.

Fundou em 1977 o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em sua cidade natal, e no mesmo ano foi eleito vereador pelo MDB à Câmara Municipal. É neste período que aquele homem, a quem foi negado os estudos para sempre ser submisso ao sistema, sofre as primeiras ameaças de morte. Era o defensor da floresta lutando por seus direitos e incomodando os grandes fazendeiros.
Em 1979 fez da Câmara Municipal um local de debates entre lideranças sindicais, populares e religiosas. Foi por isso acusado de subversão e submetido a duros e violentos interrogatórios, sendo torturado secretamente. Mas as consequências de suas lutas em prol de seu povo e de seus direitos não para por aí. Ainda na época da Ditadura Militar, em 1980, é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros do Acre.

No ano de 1985 liderou o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, foi quando a luta dos seringueiros começou a ganhar repercussão nacional e internacional. Tinha a proposta de unir os interesses dos índios e dos seringueiros em defesa da Floresta Amazônica. Propunha a criação de reservas extrativistas, onde seria preservada as áreas indígenas e de mata, e garantiria a reforma agrária para beneficiar os seringueiros. Ganhou maior projeção quando em 1987 membros do órgão do meio ambiente ligado à ONU visitaram a floresta e constataram a devastação da Amazônia e a expulsão dos seringueiros, feito pelos fazendeiros com dinheiro de projetos financiados por bancos internacionais. Compareceu no Congresso dos Estados Unidos e lá fez mais denúncias. E em um mês os programas de financiamento aos projetos de destruição da floresta foram suspensos.

Isto foi o estopim para que a perseguição direta a Chico Mendes aumentasse consideravelmente. Foi acusado pelos fazendeiros e políticos de prejudicar o progresso do Acre. As ameaças à sua vida aumentavam cada vez mais. Denunciou por várias vezes à polícia o que vinha acontecendo e, mais uma vez, não foi ouvido. Sua intensa luta pela preservação da Amazônia fez com que ele mesmo anunciasse que seria morto. Porém, as autoridades e a imprensa cerraram os seus ouvidos à voz daquele soldado verde.

No fim da tarde do dia 22 de dezembro de 1988 o sol já se fundia com as águas do barrento rio de Xapuri. O antigo seringueiro voltava para casa e visualizava aquele espetáculo da natureza com emoção. Era mais um dia que se encerrava, e caminhava rumo à família. Chegou em casa e, como um guerreiro após mais um dia de luta, tomou nos braços a filha Elenira e abraçou-a como se fosse a última vez. Para ele, essa era uma grande recompensa para tanto cansaço depois de mais um dia de trabalho. Cruzou a cozinha e saiu para se banhar do lado de fora. Bastaram dois passos, e o defensor da floresta veio ao chão, fulminado por dois tiros de escopeta.

Sua vida findara, mas sua luta jamais. Após sua morte, mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o “Comitê Chico Mendes”, exigindo providências quanto a punição deste crime. Em 1990 a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão.

Como Chico Mendes queria, várias reservas extrativistas foram criadas. A primeira surgiu em 1988. Em 2007, já existiam 35 reservas extrativistas – cooperativas para a caça e a pesca e a extração de seringa, castanha, cupuaçu, palmito, óleo de copaíba, madeira certificada, tudo de forma não-predatória.

A partir da morte de Chico Mendes, os empates para a criação de reservas foram diminuindo, até não se fazerem mais. Contudo, muitos sindicalistas ainda continuam defendo a Floresta e lutando por seus direitos e de seu povo, e assim ainda são vítimas por se perfilharem à causa de Chico Mendes. Todos na luta, buscando fazer a diferença, como defensores da Floresta.

Curitiba, 20 de junho de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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domingo, 6 de junho de 2010

Livros

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Quando Cristo fala

Atualmente, não é fácil encontrar um livro com temática religiosa de grande tiragem e número de vendas, que tenha sido escrito para os leitores em geral, que não gire em torno do tema da auto-ajuda. Na busca desenfreada pelo ter, os seres humanos se depararam com um abismo cavado sobre sua própria essência, e diante desta perca do ser, exigem para si, perante as visíveis consequências, palavras confortadoras e otimistas, fórmulas prontas conforme a força do pensamento.

Seja talvez por ter sido escrito em 1976, e influenciado por todo o contexto libertador do período pós Concílio Vaticano II, Meu Cristo Partido não corre o risco de ser taxado como um livro de auto-ajuda, nem de cair na mesmice das levas de obras que as muitas editoras nos oferecem hoje. Mas antes disso, é um livro de cunho religioso que leva o leitor a uma profunda reflexão, até mesmo dolorosa, se este se entregar verdadeiramente à leitura.

Quase beirando a um romance, Meu Cristo Partido é a grande obra do sacerdote espanhol Ramón Cué, que de forma simples e direta conseguiu criar uma narrativa envolvente, que prende o leitor na ficção escrita sem floreios ou voltas. Formado na rigidez dos seminários da Companhia de Jesus, o jesuíta Cué não deixa escapar essa influência nas linhas que escreve, sendo cuidadoso ao tratar do tema da necessidade de voltarmos os nossos olhos ao irmão que é desprezado e passível de todos os sofrimentos.

Dentro deste assunto o autor discorrerá todo o livro, contando a história como que em um programa de televisão, partindo do momento que ele, entre idas e vindas nos antiquários de Sevilha, encontra um Cristo muito bem talhado em madeira, mas totalmente partido e despedaçado, e por ele fica encantado, desprendendo assim uma grande quantia para levá-lo para casa.

Aí que começa toda a intimidade de Meu Cristo Partido. Seguindo por cada parte onde aquela escultura de Cristo sofreu um dano, desde a falta da cruz, passando pela ausência de sua mão direita e de seu pé até o rosto cortado, o leitor é imerso em uma doce espiritualidade, sobretudo quando se depara com o grande trunfo de Cué: as palavras que o Cristo partido troca com o sacerdote. Serão elas que farão com que brilhe sobre esta obra a capacidade de tocar os corações.

É muito provável que cada leitor consiga identificar-se com este pequeno livro, possível de ser lido em poucos dias, mesmo sendo ele escrito há mais de trinta anos. Isto porque ele não foi feito pensando no lucro de sua venda, nem com a vontade de ser mais uma obra sensacionalista, mas sim com a intenção de mostrar o Cristo que está no irmão que sofre, na realidade que mora ao lado e assim fazermos enxergar nossas próprias limitações. Estas limitações não serão completadas com fórmulas prontas, ou com pensamentos positivos, mas a verdadeira mudança acontecerá a partir do momento em que eu ouvir a voz do Cristo verdadeiro. Quebra-se a arrogância que existe em nosso interior para que a necessidade e simplicidade dos pequenos, através da voz de Cristo, fale mais alto.

Curitiba, 06 de junho de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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terça-feira, 25 de maio de 2010

Uma gota

2 comentários :
UMA
Uma gota.
Uma gota d'água
tem muito a explicar:
Como a água nasce da terra
e dela agora passará sempre a jorrar.
Como pelo sol vaporiza e toma conta do ar,
formando alguma nuvem, para cinzenta ela ficar.
E depois num raio o céu todo clarear, e toda água
vir a desabar, para a terra árida fecunda molhar,
e assim num ciclo incessante, realmente belo.
Até um dia, quando pela irresponsabilidade
humana, o homem grande sede sentir
este ouro poderá não mais existir.
Nossa torneira seca estará.
Então não haverá só gota
para explicar.
GOTA
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Um pouco de poesia...

Um comentário :

HÁ

Há um homem estendido no chão,
No chão da vida, como semente.
Há uma multidão estendida no chão,
No chão do mundo, sementes dormentes.

Há uma apontada arma na mão,
Na mão do opressor, como açoite.
Há uma multidão com sangue na mão,
Na mão do mundo, açoite na noite.

Há uma causa pronta na manifestação,
Na manifestação da ideia, como voz.
Há uma boca repleta de manifestação,
Na manifestação do mundo, voz do algoz.

Há uma lança afiada cravada no peito,
No peito aberto, como guerreiro.
Há uma razão alada dentro do peito,
No peito do mundo, guerreiro prisioneiro.

Há uma controversia na argumentação,
Na argumentação do ego, como lição.
Há uma contradição naquela argumentação
Na argumentação débil, lição de humilhação.

Há um fim posto em toda visão.
Na visão do mundo, como último ponto.
Há a ausência da ânima naquela visão.
No visão do tudo, conto do ponto.
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domingo, 9 de maio de 2010

No dia das mães...

4 comentários :
"O amor de mãe é o combustível que permite a um ser humano fazer o
impossível."

Marion Garretty

Memórias
(Parte I)




O poeta cantou em seus versos que mãe não deveria morrer. Acredito, porém que ela jamais morre quando se tem guardada na mente e no coração as melhores recordações, as lembranças mais fraternais e as memórias plenas de carinho. Esse carinho não necessariamente deve acontecer por muitos abraços e tantos outros beijos, também por estes, mas sim por gestos que na sua essência expressam, ainda que da forma mais peculiar possível, ternura. Uma ternura que faz aquecer o coração dos filhos, que os conduz muito tempo depois a refletirem sobre tudo o que passou, admirando então a maciez das pétalas quando só percebiam os espinhos que as cercavam, afinal, ternura é sinônimo de amor, e amor não significa facilidade.

Voltando às memórias, elas são algo profundamente íntimo. Todos possuem as suas, das mais particulares àquelas públicas, mas sempre com aquele quê de secreto, de próprio, de intrínseco à vida humana, que guardamos como precioso tesouro, pois estas memórias nos fazem voltar e reviver fatos que marcaram nosso passado. Memórias nas quais sulcos são abertos, sementes depositadas, o crescimento cultivado, os frutos colhidos e as podas são feitas para que a vida sobreviva.

Dentro de mim pulsam memórias vivas, de um passado não tão remoto, mas cheio de acontecimentos importantes nos quais hoje constato o amor e a dedicação com os quais foi rodeado. Incandescem em meu coração algumas memórias que considero, particularmente, importantes, e quando as contemplo, sou tomado de uma grande felicidade e gratidão.Por isso sinto necessidade de externar essa gratidão. Ora, como já dito antes, as memórias não foram feitas para obrigatoriamente serem colocadas no papel. Podem muito bem ficarem guardadas no âmago de cada um. Mas compartilho minhas memórias, como fizera a Emília de Lobato, o Sargento de Milícias ou postumamente o senhor Cubas, e assim mostro com quais elementos fui edificado até aqui.

Pois bem, recordo-me que quando criança, um dos meus maiores fastios era escrever. Pesava-me realizar tal tarefa; lembro-me que o dever escolar mais temido era esse: escrever uma redação, contar uma história, desenvolver um texto a partir de figuras. As operações da matemática, a prática da caligrafia, a contextualização da história, tudo isso preferia à produção de texto. Como era enfadonho tudo aquilo. E quando eu pousava o lápis sobre o rascunho, não me saia nada além da secura de uma descrição simples por demais.

Tudo bem, poderia pensar eu, naquela época tinha meus 8 anos, e uma criança nessa idade, se não for um gênio, não consegue escrever muitas elaboradas linhas. Mas a questão era que nem poucas linhas eu conseguia escrever. E quando por ventura fazia isso sozinho, o resultado, marcado à tinta vermelha no canto superior direito da folha, era deprimente. Criança provavelmente não se deprimiria por causa de uma nota de redação, mas aquilo me incomodava, afinal, sempre quis ter bons resultados.

Um tanto quanto perdido, não sabia o que fazer. Aliás, sabia em partes. Eu tinha uma solução simples, mas que não seria tão fácil de obter: minha mãe. Ela escrevia bem, e poderia me dar uma ajudinha, pensava. E não tardava para que com o lápis preto e o caderninho de rascunho – nunca no meu período de alfabetização fazia minhas tarefas definitivamente no caderno – fosse amuado e com certo receio pedir à minha mãe para que me ajudasse naquela árdua missão.
Primeiro, ela lia o enunciado e tentava me ajudar a pensar uma forma de eu escrever o que tinha de sê-lo. Seu esforço em me ajudar era grande, recordo-me bem, mas eu continuava a não produzir nada. Perguntava quais minhas ideias sobre aquilo, o que me vinha à mente quando via aqueles desenhos. E eu patinava na mesma lama de sempre.

Até que um dia, depois de muita insistência, minha mãe tomou meu lápis – que eu já levava até ela muito bem apontado no Faber-Castel – e fez ela mesma toda a história. Meus olhos devem ter brilhado e meu sorriso tomou todo o espaço de uma orelha à outra. Ela leu para mim, e na minha opinião estava perfeito. Quer dizer, era demais para minha capacidade, e para a professora não perceber que não era eu que havia escrito, pedia para dizer as partes que ficavam excessivamente grandes ou de difícil leitura. Eu estava radiante, e para uma criança aquele gesto representava a eleição de melhor mãe do mundo.

Confesso que em algumas outras vezes esse fato se repetiu. Claro que ela sempre pedia que eu me esforçasse. Puxava minha orelha quando não fazia bem feito, chamava-me à atenção quando começava a distrair-me, e proporcionava os melhores meios para que eu tivesse uma boa educação. Ao voltar os olhos do hoje para o ontem, vejo como esse fato, de minha mãe escrever minhas redações lá no primário, foi importante para mim. Como foi importante ser envolvido por este véu, através dum gesto tão simples, de amor e carinho.

Se hoje tenho a escrita como uma das paixões de minha vida, cheirando a um vício sadio, é porque naqueles tempos o fardo da redação que eu deveria carregar recaiu sobre outros ombros. Foi compartilhado. Se por acaso devesse eu enfrentar todas aquelas pautas, poucas é verdade, mas infinitas à minha pequena razão, poderia ter sido esmagado pelo peso do dever de casa. E quando o peso é maior que as forças, ele vai pressionando até causar uma ferida, chamada trauma, e que demoraria muito para depois cicatrizar.

Hoje já não é mais minha mãe que escreve minhas redações, artigos, resumos e resenhas, não porque ela não mais o queira, mas por que seu filho cresceu. Não é ela que escreve diretamente, porque tenho certeza que de tudo o que dela aprendi, no fim das contas, alguma característica trago para o papel, como para este que agora vou findando. Uma lauda não passa sem que eu pense no que ela acharia, qual opinião – sempre verdadeira e criteriosa– ela emitiria. Tanto que a primeira pessoa a ler tudo aquilo que escrevo, com a minha forma característica, como gosta de dizer, continua sendo ela. Seja pelo papel ou pela tela do computador.

Tudo isso escrevo não para que seja lido pelas multidões. Simplesmente escrevo porque um dia não gostava de escrever. E foi minha mãe que tomou minha mão, mostrou-me o caminho, e não me deixou só. Naquele tempo em que o joelho vivia ralado, o rosto era desprovido de acnes e alguns tantos dentes ainda eram de leite, eu via naquele gesto de escrever de minha mãe um “favorzão” que ela fazia para mim. Hoje vejo naquele feito uma obra maternal, uma fagulha do Amor Divino, um grandioso gesto, sem beijos e abraços naquele momento, de muito carinho e amor. Por isso escrevo. Pois meu coração ama, e agradece. Obrigado, mãe!

Curitiba, 09 de maio de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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terça-feira, 4 de maio de 2010

O som do tempo

5 comentários :
Ouço vozes. Ouço nada. Talvez tudo e um pouco mais.
Nas ondas sonoras embaladas pelo vento,

há uma música simplesmente peculiar.
Soa como ofensa aos apressados,
tranquilidade para os sãos.
Inaudível tantas vezes,
eloquente em outras.
Incessante ritmo.
Simples assim.
Um tic.
Um tac.
Vida.
Fim.
Ou começo.
Da areia que cai.
Do som que não para.
Da ampulheta a ser invertida.
Do ritmo frenético das pernas pálidas.
Esperando o esperado, julgando o futuro.
E o fim encontrando o começo, nos perdemos.
Na vibração desta música, que não cessa. A morte.
O ser volta a ser, na plenitude de sua existência. O Belo.
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terça-feira, 20 de abril de 2010

Um comentário :



O MÁRTIR DA AMÉRICA

Devo aqui confessar que os santos dos tempos atuais sempre me encantaram. Para ser mais objetivo, refiro-me àqueles que ainda não possam ter sidos canonizados, que não estão nos altares de nossas igrejas, mas marcam admiravelmente os corações de um povo devoto e têm especial lugar na vida de muitos pelo modo de viver modelo e pelo exemplo que deixaram no século XX ou até mesmo neste em que vivemos.

Talvez por suas histórias terem se passado tão perto de nossa época e de nossos dias, fico com aquela boa sensação de que é possível, sim, ser santo como eles foram, talvez não nas circunstâncias em que eles viveram, mas com o meio que usaram para fazer aquele algo a mais: a fé em Cristo e o serviço incansável aos irmãos.

São homens e mulheres que souberam ler os sinais dos tempos e adapta-los ao seu modo de viver e ao seu apostolado, fiéis a Cristo, que passa a ser até muitas vezes difícil penetrarmos nas características de algum sem esbarrarmos em traços de outro.

O século XX foi repleto de tais seres humanos que cantaram a beleza da vida, a harmonia da criação, a grandeza do Criador. Por ser um período assolado pelas grandes guerras, pelo ódio fatal, pela ganância sem igual, afloraram também, e principalmente, dos solos banhados pelo sangue de tantos justos, flores, de beleza formidável, revestidas de caridade, ornadas de esperança, petaladas de fé, com o santo e agradável perfume da santidade.

Lembro-me de forma especial de um homem que soube ser profeta, místico e apóstolo. Terminou sua vida de dedicação pela causa do Reino como mártir. Lembro-me de Dom Oscar Romero, o Mártir da América, santo pelo povo e pela sua causa.

Oscar Arnulfo Romero y Gadamez nasceu no dia 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, El Savador. De família pobre e numerosa, entrou para o seminário com 13 anos, teve que interromper a caminhada vocacional para ajudar a família em dificuldade. Ao voltar, foi enviado a Roma para completar os estudos teológicos.

Padre Oscar levava uma vida simples, de total atenção a seus paroquianos e a todos os que necessitavam. Velava pelos enfermos, assistia os presos, ensinava religião nas escolas. Foi padre por 25 anos, tempo suficiente para que conhecesse a fundo e na pele a pobreza que tomava conta de todo El Salvador.

Contudo, sua vida começou a mudar em 1970 quando Padre Oscar foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador. Sua posição moderada fez com que ele levasse a fama de conservador, mas não demorou muito para que todos conhecessem o Dom Oscar sereno, humilde e obediente, que lutaria até o fim de sua vida pelos irmãos.

Nessa época, El Savador, como a maioria dos países da América Latina, viva sob grandes conflitos internos, ás portas de uma ditadura militar. Em 1977 é nomeado Arcebispo de San Salvador. Em 1979 o presidente foi deposto, os militares assumiram o poder e aos poucos o caos se instalou. Em 1980, em três meses aconteceram 1015 assassinatos de salvadorenhos. Foi nesta época que dois padres jesuítas foram mortos por defenderem camponeses que a esses pediam abrigo. Não demorou para que definitivamente Dom Romero inserisse-se no centro do problema. Comovido com aquilo que via e sem medo algum, tomou sua cruz e partiu para cumprir sua missão, depositando sua fé totalmente em Deus.

Colocou sua voz a serviço do povo, através dos sermões transmitidos pela rádio, para ajudar a resolver o problema: queria a compreensão mútua entre todos. Ao mesmo tempo em que fazia nascer a esperança no povo, suscitava o ódio nos poderosos. Criticava a demora de um governo ineficiente que fazia vistas grossas às grandes dores do país e que dilatava a chaga da injustiça. Denunciava assassinatos, expunha os governantes à realidade que não queriam enxergar e mostrava ao povo quem eles realmente eram. Soube ser realista, perspicaz e corajoso ao enfrentar o sistema. Buscou a paz quase impossível em uma terra sofrida pela guerra. Sofreu com aqueles que dizia serem no mundo os filhos prediletos de Deus. E assim foi sua luta não somente na sua Arquidiocese, mas por todo o país, de forma que chamou a atenção, sendo ele indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1979.

Jesus Cristo nos ensinou que o Bom Pastor é zeloso e fiel, não abandona suas ovelhas, mas por elas concede-lhes a sua própria vida. E Dom Oscar Romero, amante de Cristo e de sua Igreja, cumpriu a sabedoria do Mestre.

Diante de muitas ameaças, não recuou nem titubeou, mas defendeu seus ideais e pagou o preço de seu fidelíssimo apostolado. Indefeso, sempre dizia: “Quero correr os mesmos perigos que o meu povo corre”. No dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Santa Eucaristia em meio aos doentes do Hospital da Divina Providência, Dom Oscar foi morto a tiros, fuzilado por um franco-atirador.
Ao elevar o pão, seu corpo foi sacrificado. Quando ofertava o vinho, seu próprio sangue verteu. Foi assassinado por interesses de outrem como o próprio Cristo, sem ser compreendido. E respondendo à pergunta do Senhor, bebeu do mesmo cálice que ele bebeu. Seu corpo estendido no chão foi o sinal máximo da radicalidade e autenticidade de sua fé. Sua morte, o símbolo do testemunho fiel até as últimas consequências à sua causa: o pobre e o sofredor.

Hoje, passados 30 anos de seu martírio, Dom Oscar é o símbolo da América que sofre, mas que batalha. De um discipulado exemplar e um testemunho encantador, ficará marcado pela eloquência de seu exemplo na devoção de todos aqueles que lutam pela causa do Reino. Em sua homilia momentos antes de sua morte disse: “Neste cálice o vinho se torna sangue, que foi o preço da salvação. Possa este sacrifício de Cristo nos dar a coragem de oferecer nosso corpo e nosso sangue pela justiça e pela paz do povo”.

Dom Oscar Arnulfo Romero y Gadamez, um santo dos nossos tempos, um daqueles que fizeram a diferença, viverá sempre na memória, e sobretudo, no coração do nosso povo. Como escreveu Dom Pedro Casaldáliga em 1980: “São Romero da América, pastor e mártir nosso, ninguém há de calar tua última Homilia!”

SÃO ROMERO DA AMÉRICA, ROGAI POR NÓS!

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Pela Igreja de Cristo e pelo Papa

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Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18)

De fato há, mais do que nunca, uma conspiração contra o Santo Padre e a Igreja Católica. Querem derrubar o primeiro e destruir a segunda. Há uma perseguição articulada que quer deslegitimar a autoridade moral da Igreja, do Papa, para tirar força da sua mensagem. Com isso não pretendo, de nenhum modo, minimizar os escândalos. É claro para todos que houve menosprezo de muitos bispos e muitos erros foram cometidos por alguns membros do clero; padres que erraram e pecaram. Mas existem tantos outros, a maioria, sacerdotes bons, que nunca fizerma o mal a ninguém, que não abusaram de quem quer que seja, que não pensam na carreira, nem sequer buscam o poder. Que o erro seja reconhecido e punido, mas não na proporção exagerada que os meios de comunicação concederam a tudo isso que acompanhamos e outros segmentos satânicos de nossa sociedade. Sem muito mais o que falar nesta postagem - outras virão - quero pedir a todos os que passam por aqui, as orações pelo Santo Padre o Papa Bento XVI e pela Igreja de Cristo. Que o Vigário de Cristo tenha a fortaleza para suportar e superar essas difamações e as injustiças que cometem contra ele.
Cremos em Cristo, o Sumo Sacerdote, Cordeiro Imolado, que um dia virá para julgar vivos e mortos.Santo Padre, estamos convosco! Conte com os Católicos Verdadeiros, pois estes estão contigo!
"Santo Pai, o povo de Deus está com você e você não os deixará serem influenciados pelas intrigas do momento, pelos julgamentos que algumas vezes assolam a comunidade dos fiéis" (Cardeal Angelo Sodano)

Créditos ao Vaticanista Andrea Tornielli: http://blog.ilgiornale.it/tornielli
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Seminário Mãe do Divino Amor

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No alvorecer do cinquentenário

“Revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.”
(Ef 4, 24)

O ano de 2010 ficará marcado de forma especial, com letras de ouro, na história da Província São Paulo Apóstolo, quando o Seminário Maior Mãe do Divino Amor comemora 50 anos de existência e assim, de formação de novos palotinos, discípulos e missionários do Cristo Apóstolo.

Iniciando este período jubilar, a comunidade palotina se reuniu em Curitiba para render graças a Deus por uma etapa a se iniciar. Deus plantou uma semente nos corações de alguns jovens e agora são colhidos os primeiros frutos, de forma a ser, cada um, uma nova força no testemunho da Verdade e na construção do Reino, sob o carisma de São Vicente Pallotti.

Abrindo o ano e assim oficialmente as atividades do seminário, chegaram entre os dias 18 e 21 de janeiro os sete noviços que concluíram o Período Introdutório em Cornélio Procópio, e agora integram a comunidade do Seminário Maior, para iniciarem o segundo ano de noviciado e o primeiro do curso de Filosofia.

Na sexta-feira dia 29 de janeiro, na presença do Reitor Provincial Pe. Julio Akamine, quinze fráteres renovaram sua consagração a Deus na Sociedade do Apostolado Católico pelo período de mais um ano, na Capela Mãe do Divino Amor, em uma celebração marcante, onde foi oficialmente anunciada pelo Padre Provincial a transferência do curso de Teologia para a cidade de Londrina, Paraná.

No sábado dia 30, na Paróquia São José, tomados de uma emoção diante da grandiosidade do acontecimento que estava por se avizinhar, sete noviços realizaram sua primeira Consagração na Sociedade do Apostolado Católico. Os jovens Augusto, Danilo, Edinilson, Emerson, Fernando, Geovane e Sergilson receberam as leis e o hábito palotino das mãos do Padre Provincial, que ali representava toda a Sociedade, à qual prometeram pobreza, castidade, obediência, comunhão de bens, espírito de serviço e perseverança. Também nesta solene liturgia Fr. Edvan e Fr. José Fernando professaram seus votos perpétuos, sinal de doação da vida a Deus e aos irmãos até o seu termo.

No domingo, dia 14 de fevereiro, foi celebrada a Missa de Envio dos oito fráteres do 1° ano de Teologia, juntamente com o Pe. José Lino, que foram enviados nessa nova missão, com certo temor e tremor (cf. Fl 2, 12), mas sem jamais deixar de confiar na Providência Divina. Na certeza de que, embora distante fisicamente, nossa comunidade está próxima em espírito, com eles seguem nossas constantes orações.

Neste início de ano comemorativo, no alvorecer deste memorável jubileu, tantos acontecimentos marcantes fazem com que nos deparemos com uma reflexão. Muitas pessoas pisaram o mesmo solo que hoje nós tocamos. E se não fosse o suor derramado, a renúncia feita, a perseverança na fidelidade, não trilharíamos talvez os caminhos do hoje como o são. Portanto, cabe a nós esta interrogação: qual a minha aplicação, efetiva e real, como membro da família palotina, na construção e edificação do presente para serem alicerçados não somente os próximos cinquenta anos do Seminário, mas o futuro de nossa Sociedade?

Elevamos a nossa prece ao Senhor da vinha pela opção de todo consagrado, seu chamado a ser homem novo e sua santa perseverança. Como sabemos, a oferta de todo o nosso ser a Deus é feita de forma gratuita, intentando realizar a vontade de Deus, onde procuramos, e efetivamente encontramos, a nossa paz. Como nos diz a Palavra de Deus, é necessário, portanto a perseverança para fazermos a vontade de Deus e alcançarmos os bens prometidos (cf. Hb 10, 36).

Cinquenta anos se encerram e assim nossos olhos se abrem aos próximos vindouros. Que ecoe sempre em nossos ouvidos e da mesma forma ressoe em nossos corações as palavras de São Vicente Pallotti, que nos exorta a sermos imitadores fiéis de Nosso Senhor Jesus Cristo em todos os momentos de nossa vida (cf. OOCC, III, 40), para que não se apague em nós a chama que nos impulsiona a seguir em frente, promovendo boas obras, sempre a fim de reavivar a fé e reacender a caridade.

Nov. Edvaldo Betioli Filho
Curitiba, março de 2010
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