No dia dos pais…

Memórias

(Parte II)

Por qual motivo gostamos tanto de cultivar lembranças e alimentar memórias? Esta interrogação acompanhou-me desde quando escrevi a primeira parte destes relatos pessoais alguns meses atrás, e notei que o campo das recordações é muito mais vasto do que nós imaginamos. Se fizermos esforços concentrados, conseguiremos penetrar naqueles mais profundos recônditos da alma e viajar nas nuvens das sensações humanas que com o tempo vamos concebendo, cultivando e arquivando dentro de nós.

FatherAndSonApraz-me muito relembrar velhos fatos, acontecidos inesquecíveis, pois são eles que nos explicam tanto do presente e nos orientam para o futuro. São as lembranças que mesmo em momentos tão escuros do hoje nos trazem uma luz radiosa vinda do ontem, e nos enchem de alegria. Se contemplarmos bons e saudáveis momentos e nos alegramos por e com eles, é porque foram marcados por uma presença. E quando existe a experiência da presença em algum momento, noutro com certeza a solidão parecerá equivocada.

A presença é peça chave de um quebra-cabeça psíquico-emocional. É parte insubstituível da formação humana, como um oleiro que vai modelando o vaso a partir de um punhado de barro. Novamente, através das letras, quero compartilhar minhas memórias, porque elas são essenciais, e fazem com que nós nos compreendamos e tomemos consciência que somos.

Primeiramente, não posso deixar de lembrar que tive em minha pequena trajetória de vida muitas presenças inigualáveis e excelentes. Foram pessoas que de uma forma ou de outra contribuíram para minha formação com o simples – e complicado – fato de ser ao meu lado. Lembro-me, sobretudo hoje, de alguém que acompanhou meus primeiros passos e em uma linha evolutiva, minhas primeiras opiniões.

Uma de minhas mais caras memórias aconteceu em um agosto. Eu aguardava o resultado do vestibular que havia feito um mês antes. Essa espera sempre é aflitiva, mas não angustiante, pois existe a esperança. E justamente neste dia, fui com meu pai à capital, a fim de realizar mais uma revisão ortodôntica. Minha apreensão não poderia ser maior, logo que no horário marcado para a divulgação da lista de aprovados, estávamos dentro do carro, no meio da estrada, em uma sexta-feira ensolarada. Tentávamos escutar pelo rádio, mas o sinal da freqüência modulada, naquele lugar, era instável. Foi então que meu pai, num gesto para mim inesperado, parou no acostamento para dois nomes depois ouvirmos o locutor anunciar o meu. Foi uma explosão de alegria, comemorado como um gol no estádio – fato que também fui agraciado pela presença de meu pai. Minha felicidade era imensa, mas aumentou ou ver que também meu pai feliz ficara. Estava eu feliz por mim e por ele, afinal, havia ele dedicado-se tanto a mim, a iniciar pelo princípio da vida, que eu sentia que ele simplesmente merecia.

Foi o suficiente para marcar minha vida até os dias de hoje, assim como será até o fim, não me resta dúvida. Então alguém pode ler estas memórias e indagar-se se tudo isso foi tão importante, se disso depende meu amor por ele, ou se somente esta é a lembrança que tenho de meu pai. Absolutamente, não.

Estar perante alguém, encontrar com alguém, viver com alguém, e que sintamos sua presença, tal é o enriquecedor e por que não dizer, o misterioso por excelência. O sentido talvez possa permanecer oculto, mas esse fenômeno da presença é providencial. Nesses momentos captamos a intuição de que somos. Somos pelo amor, pela dedicação, pela entrega e pelo sacrifício do outro por nós. Sentir-se próximo por laços inquebrantáveis faz de nós não objetos, mas seres. Não sendo o ser mais um substantivo, mas um verbo. Alguém amado. Como eu fui e sou pelo meu pai.

Muitos dizem que sou fisicamente semelhante ao meu progenitor. Traços faciais fazem com que seja externa a herança genética que recebi dele. Gabriel Marcel, filósofo francês, dizia que tudo aquilo que se herda, se recebe numa atmosfera de gratidão. Por isso escrevo outra vez minhas memórias, para agradecer mais um ano que passou, por uma vida vivida juntos, com tantos momentos e, sobretudo, presenças inesquecíveis.

Poderia continuar relatando muitos outros fatos, desde comícios sob sol escaldante, passando por tantos problemas de matemática até o apoio incondicional ao meu ingresso à vida religiosa. Mas o que mais me realiza é a presença dele ao meu lado nos dias de hoje: uma mão para acolher, uma palavra para orientar, um ensinamento afim instruir e uma vida pela família a doar.Brothers

Cantou o poeta em seus versos que “toda imagem no espelho refletida, tem mil faces que o tempo ali prendeu, todos têm qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu”. Tenho, de fato, muito de meu pai. E espero, verdadeiramente, poder refletir esses dons a meus inúmeros filhos que num futuro receberei. Já não será uma prole sanguínea, mas isso não impedirá que eu seja espelho daquilo que recebi: superar obstáculos com perseverança, doar seu suor por um objetivo, lutar sempre e desanimar jamais; guardar os seus, ser disponível a quem precisa e, sobretudo, amar sem reservas.

Pai, obrigado por naqueles tempos de estudos e provas me ensinar que é muito melhor não deixar nada para amanhã se pode ser resolvido hoje. Por isso não espero mais para deixar registrado meu tão miúdo agradecimento a uma pessoa tão grande. Pela sua presença, nessa vida que é uma missão, minha sempiterna gratidão. E se alguém um dia me perguntar por que escrevo memórias, responderei simplesmente porque em minha vida houve uma presença. E isto bastará, pois palavras não são suficientes, é necessário sê-lo para outro. Obrigado, pai!

Curitiba, 08 de agosto de 2010

Edval do Betioli Filho

Comentários

Parabéns, até que vocÊ tem boa memória...rsrsrrs Parabéns ao seu pai e é claro ao meu também rsrssr
abraços.
Edvaldo Pai disse…
Edvaldo.
Sou eu quem devo agradecer sempre,primeiramente a Deus por ter me dado filhos maravilhosos e agradecer a você pelo filho abençoado que é.
Saiba sempre que pode contar comigo.Mesmo não sendo hábil nas palavras e escritas,posso dizer que amo muito você.

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