terça-feira, 29 de março de 2011

Sobre Dilma, Obama e... Lula!

3 comentários :

Quero ele de novo

Dilma me deixa enfadado, patético, entediado. Ela está se mostrando tão sóbria por cima dos panos que fico sem ter o que criticá-la. E isso é tão ruim que me leva a aceitar o insólito fato de que sinto falta de Luiz Inácio. Ele era o presidente perfeito para um cronista imperfeito. O alvo ideal para um escritor idealizador.

Poderia eu buscar outro alvo. Talvez quem sabe grudar minha implicância crônica em Hussein Obama? O papelão que realizou aqui no Brasil citando Paulo Coelho (quem?) e dizendo que é simpático às aspirações da nação americana, do sul neste caso, poderia ser meu próximo tema.

Mas simpático mesmo era apenas seu sorriso e sua ágil subida ao púlpito. De resto, o seu passeio (mas não foi uma visita oficial de negócios?) recheado de embaixadinhas, capoeira e carnaval serviu para aumentar sua popularidade por aqui enquanto em sua terra, na pátria do Tio, ela está em franca baixa. Ele tem lábia, é robusto, demonstra vitalidade e jovialidade, mas ainda conserva, por motivos diversos, a característica mais popular do político: o não cumprimento das promessas.

Contudo, Obama ainda tem crédito na praça e somos nós, povos emergentes, fiadores. E vai continuar fazendo sucesso nos países subdesenvolvidos (porque abandonamos esse nome se ainda o somos?) por onde passa, pois ainda veremos nele o ícone da superação, símbolo da esperança, fundamentado na imagem bem construída sobre o dom carismático natural.

Hussein Obama sabe utilizar tão bem sua imagem e seu discurso afável (inclusive o truque de decorar algumas palavras da língua anfitriã) que fez todo o Theatro Municipal do Rio de Janeiro aplaudi-lo em pé, na entrada e na saída, como se fosse uma divindade, um herói valoroso no esplendor da vitória: o brasileiro e seu eterno complexo de inferioridade. O que fez Obama para merecer toda a honra e glória recebida? Simplesmente, nos bastidores do tour pela maravilhosa cidade, autorizou a intervenção de suas forças armadas, da qual é comandante-em-chefe, na Líbia, ainda que sem tropas por terra.

Certa vez disseram-me que eu só via o lado negativo de todas as pessoas. Por isso, seja melhor eu parar aqui e anunciar em bom tom: não sou Democrata, mas gosto da figura mítica construída por Obama. Não sou Republicano, porém penso que ele não é “o cara”.

Tão inflamado pela política internacional, já estava me esquecendo do tema inicial: nosso Brasil. Falar de Obama é muito bom (e ele está lá longe!), ainda que algumas vezes seja remar contra a maré. Pode até dar audiência e popularidade, mas ainda prefiro meu alvo corriqueiro que agora está de pijama e macias pantufas.

Dilma não é suficiente, e isso é um pesadelo. Contudo, prometo que ainda escreverei uma ode a Dilma. Mas, se Diogo Mainardi disse que Lula é sua anta, com muito mais respeito parafraseio-o, escrevendo que Lula é minha inspiração. Meus escritos políticos são ainda mais pobres sem ele no cenário nacional. Então, pelo meu próprio bem, vou desde já lançar a campanha. Pela minha boa vida: quero Lula de novo, pra delírio da fiel. Ainda que ele não tenha o encanto de Obama nem a prudência de Dilma.

Continue Reading...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sobre a Igreja

2 comentários :

O Blog Diálogo Vivo recebeu na última semana uma colaboração muito especial: o Fr. Bruno Áthila, SAC (Graduado em Filosofia e acadêmico do 4° ano de Teologia), sabendo que este é um blog católico engajado na luta pelo bem, enviou-nos um artigo de sua autoria. No respeito a todas as opiniões, alegramo-nos com esta cooperação e que seja frutuosa para todos nós!

Por uma verdadeira participação

Depois do Concílio Vaticano II (11/10/1962 a 07/12/1965) falou-se muito em “participação”. Poderíamos até dizer que as mudanças ocorridas no rito da Santa Missa foram motivadas por esta palavra. Foi em vista de uma “eficaz” e “frutuosa” participação que o sacerdote passa a “presidir” a missa de frente para o povo (versus populi) e a liturgia passa a ser em língua vernácula para que o povo pudesse entender e participar ativamente. A partir disso, a missa perde um tanto de seu caráter de culto privado e assume um espírito mais comunitário e festivo.

Benedictus XVIMas a missa não perdeu o seu tom de sobrietas (sobriedade), simplicidade e silêncio. Participação no pensar do Concílio nunca foi espetáculo e “show”. Muitos pensaram/pensam que participar é como se estivesse num auditório e o sacerdote fosse o animador. Esta nunca foi a intenção do Concílio. A missa deveria conservar sua simplicidade e estabilidade ritual como certa vez recordou o então Cardeal Ratzinger, hoje nosso papa Bento XVI: “a missa é uma repetição solene”. A participação nesse sentido deveria ser mais do interior para o exterior; a mais frutuosa é aquela em que o fiel sente-se interiormente unido ao Mistério que está sendo celebrado.

Vivemos no tempo do sensacional, emocional, afetivo. Todas estas dimensões do homem são exploradas e estimuladas pelos meios de comunicação. E muitas vezes a tendência é achar que na missa a dimensão mais importante a ser experienciada é a das sensações. A dimensão dos sentidos deve fazer parte, mas ela não é a principal. Na celebração da missa entramos na dimensão do mistério, transcendemos entrando no mistério. Se tornarmos a celebração eucarística um espetáculo de sensações, a nossa eucaristia não pode criar atitudes, não gera conversão, não transforma a realidade de pecado e morte em realidade de vida e graça.

Para melhorar os abusos que se comentem em nome da “participação” precisamos ser objetivos, diretos, apresentando-se o sentido real e teológico da celebração dos mistérios de Cristo. Pode até ser dolorido, mas os excessos precisam ser evitados, para que prevaleça o sentido verdadeiro da renovação conciliar: uma “plena, consciente e ativa participação”, sem se esquecer da simplicidade (sobrietas) solene de nossa liturgia latina (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 14). Os padres que celebram grandes missas, onde há uma grande afluência de pessoas, poderiam combinar: participação animada e entusiasmada com momentos de silêncio e interiorização, “degustação” de cada momento do mistério eucarístico; as pessoas cada vez mais estão perdendo o gosto pelas coisas belas e simples e tudo tende a se transformar em pomposo, glamoroso, chegando-se ao inevitavelmente “ridículo”.

Parece, às vezes, que estamos dando “murro em ponta de faca” e que vai continuar por um bom tempo, cada um seguindo seu próprio modo de celebrar e não o da Igreja, apresentado no ritual. Mas vale a pena se investir numa formação litúrgica séria, especialmente dos seminaristas e dos agentes de pastoral de nossas comunidades. Os seminaristas precisam aprender que irão um dia presidir a Santa Eucaristia, não em nome próprio, mas in persona Christi e em nome de Cristo. Portanto, Cristo é o Presidente por antonomásia, da celebração. Ele deve ser o centro. Só Ele pode brilhar na frugalidade do rito de sua Igreja. Pois como primorosamente nos lembra o Cardeal Godfried Danneels, a liturgia nos supera: eu entro na liturgia, não posso criá-la. “Entramos nela nos dirigindo a Deus para acolhê-lo. A celebração é feita essencialmente ouvindo, acolhendo e obedecendo. Ela não é uma palavra humana, mas uma resposta humana à palavra de Deus.” A liturgia, conclui, é obra de um Outro, na casa da liturgia sou um hóspede.

Cristo ReiNão há muito o que refletir quanto a este aspecto da liturgia. Só precisamos fazer acontecer o que já nos foi dado no Concílio. E se há os que participam melhor no Rito pré-conciliar, precisam ser respeitados. Afinal temos uma riqueza sem conta de ritos na Igreja Romana. O Rito Tridentino não foi extinto, e se alguns fieis gostam deste rito e nele celebram melhor: que sejam respeitados, ouvidos e atendidos. Outros, porém, vão preferir o Rito pós-conciliar ou de Paulo VI, que sejam também incentivadas, catequizadas para celebrarem cada vez mais com um sentido de mistério e um coração tomado de amor pela simplicidade de Deus.

Fr. Bruno Áthila, SAC

brunoniscart@hotmail.com

Curitiba, quaresma de 2011

Continue Reading...

terça-feira, 22 de março de 2011

Nenhum comentário :

"Eu creio no Cristianismo tal como creio que o Sol nasceu, não apenas porque o vejo mas porque através dele eu vejo todas as outras coisas."


(C. S. Lewis 1898 - 1963)
Continue Reading...

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Kadafi que o futuro aguarda

2 comentários :
A guerra que há de vir

A moeda com a efige de César foi lançada ao ar pelas mãos de um juiz qualquer. A arquibancada que circunda o espetáculo aguarda, com olhos vidrados e cansados o cair do metal e assim a quem será concedido o direito do pontapé inicial. Espera-se também, para mais adiante, o resultado do enfrentamento que todos já sentenciam, é previsível.

Na realidade, tudo parece mais uma representação de joguetes passados, contudo, deflagará muito mais perdas que ganhos, na realidade sensível, tocante, em almas e em mãos que escolheram o direito de não apostar ficha alguma neste jogo irracionalmente sanguinário. E serã estas mãos, as mais limpas e suplicantes, as primeiras a serem ceifadas, decepadas.

E a crônica, repetir-se-á mais uma vez. Com os mesmos gritos, com os mesmos apelos, com as mesmas vozes, consonantes e dissonantes: as mesmas palavras. Os mesmos corações, se eles existem.

O ditador da vez não é Hussein, mundialmente enforcado anos atrás, mas Kadafi (com tantas alternativas, adoto a escrita mais simples). O retalho de terra a ser rasgado não é o Iraque, mas a Líbia. E nele, muitíssimos poços de petróleo.

Embora a bandeira da democracia seja levantada pela queda do opressor regime ditatorial kadafiano, há detrás de tudo isso o ouro negro: a Líbia é membro da Organização dos Paises Exploradores de Petróleo; é o 11° maior exportador mundial (à frente do Iraque), além de possuir (atente-se a esse número) a 8ª maior reserva do planeta, muito à frente dos Estados Unidos, China e Brasil, com uma estimativa de aproximadamente 42 bilhões de barris.

Não pode existir mente ingênua que pense talvez ser verdadeiro o interesse de França, Inglaterra, e agora os Estados Unidos em intervir militarmente na Líbia somente para colocar ordem no caos e libertar o povo da opressão ditatorial. Se tudo ocorrer como indica o horizonte escuro das nuvens bélicas, há de explodir num futuro não tão distante mais uma guerra, desta vez no norte da África, tornando todo o Mediterrâneo vulnerável, tendo o petróleo e milhões de dólares envolvidos.

Outro elemento a deixar o mundo em alerta atende por Israel. Em 2009, Kadafi convocou os árabes de todo o mundo a combater Israel, voluntariamente ao lado dos palestinos. "Devemos fechar definitivamente esta porta e boicotar novamente [Israel], porque é o inimigo" - foi a frase do presidente-ditador. O que podemos esperar deste senhor, marcado pelas cirurgias plásticas que jamais escondem a demoníaca face do sanguinarismo humano da sede de poder, que mata inocentes para mostrar o poderío?

Se uma intervenção militar realmente vier a acontecer - a ONU já deu carta branca e forças militares americanas estão mobilizadas no Mediterrâneo - o problema Israel x Palestina não passará incólume. Ou seja, mais sangue regará o solo.

Ainda que a belicosidade seja grande, não há porque (assim espero) esse conflito se alastrar passando a fomentar uma Terceira Guerra Mundial como muitos profetizam. Há de ser realmente uma guerra, com maiores proporções que a do Iraque, pois a Líbia tem no poder um ditador que está disposto a tudo, diferentemente de Hussein em 2003, contudo, "apenas" continental.

Os problemas serão os mesmos se as medidas a partir de agora não forem as mais pacíficas possíveis. Os tempos estão mudando. Pode-se também mudar as mentalidades de toda uma geração. Mas se Kadafi assim não quer, assim ele não terá. Sofrerá a derrota militar - ou alguém espera que a coalisão França, Inglaterra, EUA e Israel saiam "vietnamizados" desta guerra? Novamente a história vai se repetindo, pela tolice humana, pela sede do poder, pela loucura da posse, pelo extermínio do dinheito.

A moeda está ainda no ar, prestes a cair na mão de um juiz qualquer. Todos querem ver de qual lado estará o rosto do augusto imperador coroado de louros. Mas terão de esperar alguns instantes a mais até que as manchas de petróleo desobstruam a nossa visão e passem a jorrar pelo chão, misturadas com a escarlate marca do sangue de inocentes.
Continue Reading...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Escrevendo na areia

Um comentário :

Escrevendo na areia


Netas férias realizei uma experiência diferente: escrever na areia.

No princípio, era apenas um passatempo, no qual eu rabiscava nos infinitos grãos, logo ao nascer da manhã, o endereço deste blog.

Mas com o passar dos dias, notei que alguns dos caminheiros, aqueles que assim como eu gostavam de contemplar a Criação quando iluminada pelos primeiros raios solavres, notavam aquelas marcas por onde pisavam.

Passei então a escrever orações, acreditando que assim poderia cumprir dois objetivos: falar com Deus de uma forma diferente, através da areia de suas praias e também evangelizar.

Para minha surpresa, Deus sensibilizou o coração de algumas pessoas que, através de palavras como o Santo Anjo ou a Salve Rainha, entre outras, sentiram-se de uma forma ou de outra tocadas por Ele.

Algumas, vencendo a timidez, vieram conversar comigo. Outras, notava eu, seguiam meus passos, silenciosas, lendo o que escrevia em toda a extensão da areia.

Por fim, usei os últimos dias diante do Atlântico deixando na areia algumas palavras de minha autoria, que Deus inspirava-me no momento, a fim de também poder, para a Glória de Deus, mexer nos corações dos transeuntes.

Confesso que foi uma experiência sensacional, mais uma prova de coisas simples nossa vida é marcada. É a partir dos pequenos gestos que nascem grandes mudanças.

Além do mais, escrever na areia trouxe-me uma grande lição: a graça e a necessidade de sempre recomeçar. Todo dia, pela manhã, algo era escrito. Essa frase durava algumas horas até que o mar, em sua majestosa força, arrastasse para dentro de si todas as minhas impressões. No outro dia, a areia novamente estava lisa, sem resquícios da caligrafia do dia anterior, pronta para mais reflexões.

Outra graça foi poder conhecer várias pessoas que jamais tinha visto, conversado, cumprimentado. Elas incentivavam, opinavam, perguntavam... E eu percebia, pouco a pouco, que podemos construir uma humanidade fraterna. É muito difícil, de fato. Exige muitos recomeços, pois além das forças da natureza, pés humanos desmancharão aquilo que já foi iniciado. Mas sempre haverá um recomeçar, e o que é mais importante, dos pequenos gestos, dos singelos, mas verdadeiros, atos do coração.
Que este período quaresmal, tempo propício para as mudanças sobretudo internas nos conduzam às modificações externas.
. o O o .
"Alguns podem ainda dizer:
'quão tolo é aquele que tenta eternizar seus pensamentos na areia!'
Na verdade. queremos viver com a chance de recomeçar"
. o O o .
"O escritor macula o papel com suas impressões.
Com tinta abre veredas para conquistar os seus sonhos.
Medo, alegria, fé, simplicidades complexas da vida.
Eu escrevo na areia. Ainda que todo dia o mar apague, quero tocar o infinito.
E sei que meu esforço não é em vão."
Continue Reading...

terça-feira, 8 de março de 2011

A santa juventude

Nenhum comentário :

"Os jovens devem sair de seu isolamento, devem buscar o contato com outros jovens que trabalham e lutam por reivindicar os direitos de Deus e do homem. Não devem permanecer indiferentes diante das distintas agrupações formadas com o fim de dar ao bem uma arma de caráter social, já que o mal a tem como muito poderosa. Agrupai-vos, jovens católicos! Afastai-vos do isolamento que degrada, que envelhece, que mata, que leva indefectivelmente à derrota. Ide prontamente à organização [católica], pois assim vossos brilhos e vossas energias crescerão titânicamente, colossalmente, e Cristo reinará apesar dos tiranos."

Beato Anacleto González Flores
Mártir Mexicano (1888-1927)
Continue Reading...

domingo, 6 de março de 2011

Vivendo e aprendendo...

Nenhum comentário :

 

EU VI, EU VIVI

CAPÍTULO III

O depois de uma viagem

Quando se faz uma viagem, o destino é sempre esperado. Se for uma viagem querida, com muito maior entusiasmo esperará a chegada o viajante. Pode ser que o meio pelo qual essa excursão é feita influencie no prazer de viajar, ou então o destino a ser alcançado também modifique o ânimo daquele que se põe a caminho. O que importa, na maioria das vezes, é que se chegue, e bem, no lugar almejado para cumprir um objetivo que se tem previamente.

Tudo o que eu tenho a dizer é que eu não esperava a viajem que fiz naquela biblioteca, tampouco com o meio que utilizei, muito menos o lugar aonde cheguei. Não teve fumaça, pozinho ou palavras mágicas. Simplesmente, ao cair no chão, o livro aberto pôs-se a me sugar, tragando-me para o outro lado. Não me senti sufocado, nem tive a sensação de estar sendo esmagado. Somente fui sugado, pelo livro e pelo perfume. Ah, aquele perfume!

Durante o tempo todo, de um lugar ao outro, senti aquele cheiro diferente. Não sei precisar qual foi o tempo da viagem, mas talvez possa ter sido entre um piscar de olhos e o ciclo metamórfico da lagarta dentro de seu casulo. Mas aconteceu que meus pés se plantaram firme no chão quando senti que estava sendo expelido, como a criança do útero materno.

O chão no qual eu pisava era de madeira, um assoalho bem lustrado, que parecia muito com o da biblioteca de instantes atrás. Aliás, no princípio achei tudo muito parecido com a biblioteca de Tia Amélia sem perceber que aquele ambiente era realmente o cômodo do velho casarão! As estantes eram as mesmas, os livros iguais, as mesas, como se fossem gêmeas, a janela muito bem limpa, o teto todo pintado, idêntica arte. E a vitrola, que antes mal tinha reparado, também tocava, e era a mesma Primavera.

Como poderia ser tudo tão igual? Será que eu não havia saído do lugar? Fui acometido por alucinações? Delírios? Mas notei algo curioso. No teto da biblioteca de antes, havia pintada no arco bem acima da estante da qual eu – minha mão, na verdade – derrubei o livro perfumado, a figura de uma belíssima dama, de pele clara e cabelos castanhos, com um belo vestido de rosas. Ali, naquele teto, em seu lugar, havia um espaço, sem nada pintado, apenas pincelado o fundo azul que dominava toda pintura.

Se aquele era realmente o mesmo lugar de antes, só explorando a situação para comprovar. E o que eu deveria fazer? Logo fitei a porta, a mesma porta, a mesma fechadura em formato de elefante, o mesmo mistério, só que agora para saber o que havia do lado oposto. Tantas vezes na vida somos assim: passamos pelas mesmas portas diversas vezes e nos esquecemos que já passamos por ali.

O elefante, cuja tromba fazia a composição da maçaneta, foi girado por minha mão direita que trêmula acompanhava o ritmo frenético das batidas do meu coração. Na prática seria muito melhor que do outro lado eu encontrasse aquele corredor velho, de assoalho rangedor, e ir até a mesma sala que estava antes de tudo isso. Mas no fundo eu desejava encontrar outro mundo após aquele madeiro, onde eu pudesse ser o rei, e com a espada empunhada, mandar em todas as terras, inclusive aquelas que ficavam para lá dos montes.

Ainda criança, ainda sonhador, ainda aventureiro, o que encontrei do outro lado deixou-me, novamente e não pela última vez, enlevado. Ao ranger das dobradiças, surgiu diante deste pequeno corpo um lugar muito claro, um corredor muitíssimo longo, o qual eu não conseguia ver o final, tomado por uma fortíssima luz.

O corredor era forrado por ladrilhos branquíssimos, mais brancos que a roupinha de minha irmã no dia de seu batizado. Dos dois lados, tanto à minha esquerda quanto à minha direita, estavam plantadas colunas também brancas, como aquelas gregas, jônicas ou dóricas – nunca lembrava realmente a diferença entre elas. Incontáveis, elas sustentavam um teto cujos arcos formavam diversas cúpulas românicas e todas elas ricamente pintadas, no mais sublime estilo renascentista, com pessoas e situações, igualmente à biblioteca da Tia Amélia, e alguns metros à minha frente, uma estante dourada apoiadora de um gigantesco, magistral.

Notei, espantado, que entre cada duas colunas havia também uma porta. A cor das portas nem preciso descrever, pois já parece óbvio que neste lugar elas não possuíssem outra cor a não ser a branca. Pairava uma brisa refrescante, que me fazia sentir muito bem, matando todo o medo que poderia existir dentro de mim.

Meus pés, ainda que petrificados pelo êxtase de estar naquele lugar surreal, conseguiram movimentar-se, um de cada vez, realizando aquilo que chamamos de passo, até o reluzente ambão, da minha altura, como se fosse feito sob medida. Toquei o livro de páginas macias, douradas também, e li aquela caligrafia fina e inclinada que tangia o centro da página:

Se aqui você chegou,

de ser tolo já deixou.

Mas ainda não é capaz,

de notar o que lhe há por trás?

Seus olhos podem vigiar,

e sua inteligência jamais repousar.

Mas será em vão procurar,

se o seu coração não desejar.

Pode sua mente viajar,

e muitos planos arquitetar.

Mas seus pés do chão não sairão,

se madura não for a decisão.

Cuide de sua curiosidade,

Que não lhe logrará a tranquilidade.

Mas talvez lhe leve à saciedade

ou então apresente a felicidade.

Se o encanto das letras lhe guiar,

e o perfume do amor lhe conduzir,

pode ver seu mundo mudar,

com bem que há de vir.

Diante dos monstros, lutar.

Perante os desafios, tentar.

Defronte o medo, agigantar.

E a fé sempre cultivar.

Uma opção deve ser feita,

quer seja hoje ou amanhã.

Se olhares para trás,

a mim perceberá

sem que lá eu esteja.

Deseja?

A cada linha que lia o perfume de sempre aumentava. Foi no puro instinto que depois de ler aquelas rimas e assimilar seu conteúdo, quando o perfume já adocicava cada centímetro cúbico do ar eu olhei para trás e tive a visão mais bela dos últimos tempos.

digitalizar0006 (2)Não tinha a beleza das criaturas celestes, mas era a mais bela dos seres terrestres. Pintor algum neste orbe conseguiria exprimir seus traços ímpares. Por mais talentoso que fosse tudo ficaria sempre aquém do que ela era. O perfume, agora eu percebia, tinha nela sua fonte. Era tão delicada e ao mesmo tempo parecia uma fortaleza. Tão pura e inocente, mas astuta e destemida. Coragem e sensibilidade eram os traços de sua face aveludada, emoldurada por um cabelo da cor do desejo. E eu me sentia bem, ela me parecia familiar, fazendo-me sentir um gostinho de dejavù.

- Quem é você? – perguntei como toda criança faz diante do desconhecido.

Sim, lembrei-me! Ela era a pintura da biblioteca da tia Amélia encarnada, justamente a personagem que faltava na abóbada da outra biblioteca, que ficava além da porta que cruzara há pouco. A mesma belíssima dama, de pele clara e cabelos castanhos, com um belo vestido de rosas.

- Vocês me chamam por vários nomes, os quais descobrirá, jovem senhor. Mas para que não encontremos mais problemas, chame-me de Alíria.

Ela soube pronunciar de uma forma tão meigavelmente séria que não consegui esconder um pequeno sorriso diante daquele lindo nome.

- Alíria, onde estou? Que lugar é esse? O que está acontecendo? Aquele livro, na biblioteca, não era minha intenção...

E suavemente ela interrompeu-me:

- Não era sua intenção derrubá-lo, e tampouco nele entrar. Sim, inquieto pequeno, não foi por querer, mas por desejo. Um pouquinho implícito, mas por desejo.

Eu não desejara entrar em um livro! Só queria andar por aquela casa velha! E além do mais, algo estranho, ela sabia de tudo! Eu tinha tantas perguntas em minha cabeça, que logo começaria a fazê-las, se não fosse Alíria antecipar-me.

- Serei tua companheira, como lestes naquele livro há pouco. Contudo, a priori de qualquer ato, concedo-lhe duas coisas que lhe serão úteis por demais.

Entregou-me primeiro uma caneta. Simples, comum até demais para aquele lugar onde tudo era magnânimo. E depois girou a mão em círculos horizontais por sobre minha cabeça até que eu sentisse o peso do segundo presente.

E outra vez – serão muitas até o ponto final – surpreendi-me. Jamais esperava ganhar aquilo! Precisava saber como usar, com qual finalidade. Eram tantas as perguntas que nebulavam minha pequena pessoa, que começaria a fazê-las o quanto antes àquela suave pintura viva.

Continue Reading...