Vivendo e aprendendo...

 

EU VI, EU VIVI

CAPÍTULO III

O depois de uma viagem

Quando se faz uma viagem, o destino é sempre esperado. Se for uma viagem querida, com muito maior entusiasmo esperará a chegada o viajante. Pode ser que o meio pelo qual essa excursão é feita influencie no prazer de viajar, ou então o destino a ser alcançado também modifique o ânimo daquele que se põe a caminho. O que importa, na maioria das vezes, é que se chegue, e bem, no lugar almejado para cumprir um objetivo que se tem previamente.

Tudo o que eu tenho a dizer é que eu não esperava a viajem que fiz naquela biblioteca, tampouco com o meio que utilizei, muito menos o lugar aonde cheguei. Não teve fumaça, pozinho ou palavras mágicas. Simplesmente, ao cair no chão, o livro aberto pôs-se a me sugar, tragando-me para o outro lado. Não me senti sufocado, nem tive a sensação de estar sendo esmagado. Somente fui sugado, pelo livro e pelo perfume. Ah, aquele perfume!

Durante o tempo todo, de um lugar ao outro, senti aquele cheiro diferente. Não sei precisar qual foi o tempo da viagem, mas talvez possa ter sido entre um piscar de olhos e o ciclo metamórfico da lagarta dentro de seu casulo. Mas aconteceu que meus pés se plantaram firme no chão quando senti que estava sendo expelido, como a criança do útero materno.

O chão no qual eu pisava era de madeira, um assoalho bem lustrado, que parecia muito com o da biblioteca de instantes atrás. Aliás, no princípio achei tudo muito parecido com a biblioteca de Tia Amélia sem perceber que aquele ambiente era realmente o cômodo do velho casarão! As estantes eram as mesmas, os livros iguais, as mesas, como se fossem gêmeas, a janela muito bem limpa, o teto todo pintado, idêntica arte. E a vitrola, que antes mal tinha reparado, também tocava, e era a mesma Primavera.

Como poderia ser tudo tão igual? Será que eu não havia saído do lugar? Fui acometido por alucinações? Delírios? Mas notei algo curioso. No teto da biblioteca de antes, havia pintada no arco bem acima da estante da qual eu – minha mão, na verdade – derrubei o livro perfumado, a figura de uma belíssima dama, de pele clara e cabelos castanhos, com um belo vestido de rosas. Ali, naquele teto, em seu lugar, havia um espaço, sem nada pintado, apenas pincelado o fundo azul que dominava toda pintura.

Se aquele era realmente o mesmo lugar de antes, só explorando a situação para comprovar. E o que eu deveria fazer? Logo fitei a porta, a mesma porta, a mesma fechadura em formato de elefante, o mesmo mistério, só que agora para saber o que havia do lado oposto. Tantas vezes na vida somos assim: passamos pelas mesmas portas diversas vezes e nos esquecemos que já passamos por ali.

O elefante, cuja tromba fazia a composição da maçaneta, foi girado por minha mão direita que trêmula acompanhava o ritmo frenético das batidas do meu coração. Na prática seria muito melhor que do outro lado eu encontrasse aquele corredor velho, de assoalho rangedor, e ir até a mesma sala que estava antes de tudo isso. Mas no fundo eu desejava encontrar outro mundo após aquele madeiro, onde eu pudesse ser o rei, e com a espada empunhada, mandar em todas as terras, inclusive aquelas que ficavam para lá dos montes.

Ainda criança, ainda sonhador, ainda aventureiro, o que encontrei do outro lado deixou-me, novamente e não pela última vez, enlevado. Ao ranger das dobradiças, surgiu diante deste pequeno corpo um lugar muito claro, um corredor muitíssimo longo, o qual eu não conseguia ver o final, tomado por uma fortíssima luz.

O corredor era forrado por ladrilhos branquíssimos, mais brancos que a roupinha de minha irmã no dia de seu batizado. Dos dois lados, tanto à minha esquerda quanto à minha direita, estavam plantadas colunas também brancas, como aquelas gregas, jônicas ou dóricas – nunca lembrava realmente a diferença entre elas. Incontáveis, elas sustentavam um teto cujos arcos formavam diversas cúpulas românicas e todas elas ricamente pintadas, no mais sublime estilo renascentista, com pessoas e situações, igualmente à biblioteca da Tia Amélia, e alguns metros à minha frente, uma estante dourada apoiadora de um gigantesco, magistral.

Notei, espantado, que entre cada duas colunas havia também uma porta. A cor das portas nem preciso descrever, pois já parece óbvio que neste lugar elas não possuíssem outra cor a não ser a branca. Pairava uma brisa refrescante, que me fazia sentir muito bem, matando todo o medo que poderia existir dentro de mim.

Meus pés, ainda que petrificados pelo êxtase de estar naquele lugar surreal, conseguiram movimentar-se, um de cada vez, realizando aquilo que chamamos de passo, até o reluzente ambão, da minha altura, como se fosse feito sob medida. Toquei o livro de páginas macias, douradas também, e li aquela caligrafia fina e inclinada que tangia o centro da página:

Se aqui você chegou,

de ser tolo já deixou.

Mas ainda não é capaz,

de notar o que lhe há por trás?

Seus olhos podem vigiar,

e sua inteligência jamais repousar.

Mas será em vão procurar,

se o seu coração não desejar.

Pode sua mente viajar,

e muitos planos arquitetar.

Mas seus pés do chão não sairão,

se madura não for a decisão.

Cuide de sua curiosidade,

Que não lhe logrará a tranquilidade.

Mas talvez lhe leve à saciedade

ou então apresente a felicidade.

Se o encanto das letras lhe guiar,

e o perfume do amor lhe conduzir,

pode ver seu mundo mudar,

com bem que há de vir.

Diante dos monstros, lutar.

Perante os desafios, tentar.

Defronte o medo, agigantar.

E a fé sempre cultivar.

Uma opção deve ser feita,

quer seja hoje ou amanhã.

Se olhares para trás,

a mim perceberá

sem que lá eu esteja.

Deseja?

A cada linha que lia o perfume de sempre aumentava. Foi no puro instinto que depois de ler aquelas rimas e assimilar seu conteúdo, quando o perfume já adocicava cada centímetro cúbico do ar eu olhei para trás e tive a visão mais bela dos últimos tempos.

digitalizar0006 (2)Não tinha a beleza das criaturas celestes, mas era a mais bela dos seres terrestres. Pintor algum neste orbe conseguiria exprimir seus traços ímpares. Por mais talentoso que fosse tudo ficaria sempre aquém do que ela era. O perfume, agora eu percebia, tinha nela sua fonte. Era tão delicada e ao mesmo tempo parecia uma fortaleza. Tão pura e inocente, mas astuta e destemida. Coragem e sensibilidade eram os traços de sua face aveludada, emoldurada por um cabelo da cor do desejo. E eu me sentia bem, ela me parecia familiar, fazendo-me sentir um gostinho de dejavù.

- Quem é você? – perguntei como toda criança faz diante do desconhecido.

Sim, lembrei-me! Ela era a pintura da biblioteca da tia Amélia encarnada, justamente a personagem que faltava na abóbada da outra biblioteca, que ficava além da porta que cruzara há pouco. A mesma belíssima dama, de pele clara e cabelos castanhos, com um belo vestido de rosas.

- Vocês me chamam por vários nomes, os quais descobrirá, jovem senhor. Mas para que não encontremos mais problemas, chame-me de Alíria.

Ela soube pronunciar de uma forma tão meigavelmente séria que não consegui esconder um pequeno sorriso diante daquele lindo nome.

- Alíria, onde estou? Que lugar é esse? O que está acontecendo? Aquele livro, na biblioteca, não era minha intenção...

E suavemente ela interrompeu-me:

- Não era sua intenção derrubá-lo, e tampouco nele entrar. Sim, inquieto pequeno, não foi por querer, mas por desejo. Um pouquinho implícito, mas por desejo.

Eu não desejara entrar em um livro! Só queria andar por aquela casa velha! E além do mais, algo estranho, ela sabia de tudo! Eu tinha tantas perguntas em minha cabeça, que logo começaria a fazê-las, se não fosse Alíria antecipar-me.

- Serei tua companheira, como lestes naquele livro há pouco. Contudo, a priori de qualquer ato, concedo-lhe duas coisas que lhe serão úteis por demais.

Entregou-me primeiro uma caneta. Simples, comum até demais para aquele lugar onde tudo era magnânimo. E depois girou a mão em círculos horizontais por sobre minha cabeça até que eu sentisse o peso do segundo presente.

E outra vez – serão muitas até o ponto final – surpreendi-me. Jamais esperava ganhar aquilo! Precisava saber como usar, com qual finalidade. Eram tantas as perguntas que nebulavam minha pequena pessoa, que começaria a fazê-las o quanto antes àquela suave pintura viva.

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