segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Corações de ferro: monstros ou heróis?

Um comentário :
O cinema americano é especialista em produzir longas que retratam a história clichê dos seus patriotas salvadores de todas as guerras e vencedores de todas as batalhas, nos quais os efeitos especiais valem mais que uma história de mocinhos contra vilões, misturado ao doce de paixões impossíveis.
Uma grata surpresa cinematográfica foi “Corações de Ferro” (Fury no original, 134 minutos, 2014). É um filme com corpo e alma, intenso: seu foco não está no conflito propriamente dito, mas nas lutas interiores de cada um dos cinco personagens principais. O final da Segunda Guerra Mundial, no interior da Alemanha rural é o pano de fundo para surpreender quem foi ao cinema esperando mais um filme de pancadaria.
Dentre tantos filmes em cartaz, muitos desprezíveis, este te leva a sair do cinema mais interrogativo do que se entrou. O clima de tensão e pressão é dilatado pelo cenário principal, o blindado Fúria. Ali dentro cai toda a razão humana, as certezas morais, as memórias que dão fiança. Ali os sentimentos são soterrados nos calabouços mais protegidos e acreditar em Deus torna-se missão para os fortes. É o ser humano que vai à lama, ao mínimo de si, quando se vê obrigado a matar ou a morrer.
A crueldade da guerra pode ser lida na expressão de cada um: do inocente Norman (Logan Lerman) ao petrificado capitão Don (Brad Pitt). A guerra que mata fora e dentro, que faz envelhecer 30 anos aquele que nela lutou três semanas, deixa uma interrogação final: depois de tudo, os tripulantes do Fúria e os outros combatentes, monstros ou heróis? 
O filme recheado de dilemas é um trabalho de primeira do diretor David Ayer, que contraria todas as expectativas. “Ideais são pacifistas, a história é violência”: a cena da última batalha contra os nazistas e o último diálogo entre o capitão e o novato coroam a saga para dentro de cada homem. Um filme de guerra brutal, com sangue, suor e morte, e sensível, com vida, fé e vontade, refletindo exatamente aquilo que cada um traz dentro de si: a monstruosidade e a heroicidade do ser humano. Vale o ingresso!

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