terça-feira, 25 de maio de 2010

Uma gota

2 comentários :
UMA
Uma gota.
Uma gota d'água
tem muito a explicar:
Como a água nasce da terra
e dela agora passará sempre a jorrar.
Como pelo sol vaporiza e toma conta do ar,
formando alguma nuvem, para cinzenta ela ficar.
E depois num raio o céu todo clarear, e toda água
vir a desabar, para a terra árida fecunda molhar,
e assim num ciclo incessante, realmente belo.
Até um dia, quando pela irresponsabilidade
humana, o homem grande sede sentir
este ouro poderá não mais existir.
Nossa torneira seca estará.
Então não haverá só gota
para explicar.
GOTA
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Um pouco de poesia...

Um comentário :

HÁ

Há um homem estendido no chão,
No chão da vida, como semente.
Há uma multidão estendida no chão,
No chão do mundo, sementes dormentes.

Há uma apontada arma na mão,
Na mão do opressor, como açoite.
Há uma multidão com sangue na mão,
Na mão do mundo, açoite na noite.

Há uma causa pronta na manifestação,
Na manifestação da ideia, como voz.
Há uma boca repleta de manifestação,
Na manifestação do mundo, voz do algoz.

Há uma lança afiada cravada no peito,
No peito aberto, como guerreiro.
Há uma razão alada dentro do peito,
No peito do mundo, guerreiro prisioneiro.

Há uma controversia na argumentação,
Na argumentação do ego, como lição.
Há uma contradição naquela argumentação
Na argumentação débil, lição de humilhação.

Há um fim posto em toda visão.
Na visão do mundo, como último ponto.
Há a ausência da ânima naquela visão.
No visão do tudo, conto do ponto.
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domingo, 9 de maio de 2010

No dia das mães...

4 comentários :
"O amor de mãe é o combustível que permite a um ser humano fazer o
impossível."

Marion Garretty

Memórias
(Parte I)




O poeta cantou em seus versos que mãe não deveria morrer. Acredito, porém que ela jamais morre quando se tem guardada na mente e no coração as melhores recordações, as lembranças mais fraternais e as memórias plenas de carinho. Esse carinho não necessariamente deve acontecer por muitos abraços e tantos outros beijos, também por estes, mas sim por gestos que na sua essência expressam, ainda que da forma mais peculiar possível, ternura. Uma ternura que faz aquecer o coração dos filhos, que os conduz muito tempo depois a refletirem sobre tudo o que passou, admirando então a maciez das pétalas quando só percebiam os espinhos que as cercavam, afinal, ternura é sinônimo de amor, e amor não significa facilidade.

Voltando às memórias, elas são algo profundamente íntimo. Todos possuem as suas, das mais particulares àquelas públicas, mas sempre com aquele quê de secreto, de próprio, de intrínseco à vida humana, que guardamos como precioso tesouro, pois estas memórias nos fazem voltar e reviver fatos que marcaram nosso passado. Memórias nas quais sulcos são abertos, sementes depositadas, o crescimento cultivado, os frutos colhidos e as podas são feitas para que a vida sobreviva.

Dentro de mim pulsam memórias vivas, de um passado não tão remoto, mas cheio de acontecimentos importantes nos quais hoje constato o amor e a dedicação com os quais foi rodeado. Incandescem em meu coração algumas memórias que considero, particularmente, importantes, e quando as contemplo, sou tomado de uma grande felicidade e gratidão.Por isso sinto necessidade de externar essa gratidão. Ora, como já dito antes, as memórias não foram feitas para obrigatoriamente serem colocadas no papel. Podem muito bem ficarem guardadas no âmago de cada um. Mas compartilho minhas memórias, como fizera a Emília de Lobato, o Sargento de Milícias ou postumamente o senhor Cubas, e assim mostro com quais elementos fui edificado até aqui.

Pois bem, recordo-me que quando criança, um dos meus maiores fastios era escrever. Pesava-me realizar tal tarefa; lembro-me que o dever escolar mais temido era esse: escrever uma redação, contar uma história, desenvolver um texto a partir de figuras. As operações da matemática, a prática da caligrafia, a contextualização da história, tudo isso preferia à produção de texto. Como era enfadonho tudo aquilo. E quando eu pousava o lápis sobre o rascunho, não me saia nada além da secura de uma descrição simples por demais.

Tudo bem, poderia pensar eu, naquela época tinha meus 8 anos, e uma criança nessa idade, se não for um gênio, não consegue escrever muitas elaboradas linhas. Mas a questão era que nem poucas linhas eu conseguia escrever. E quando por ventura fazia isso sozinho, o resultado, marcado à tinta vermelha no canto superior direito da folha, era deprimente. Criança provavelmente não se deprimiria por causa de uma nota de redação, mas aquilo me incomodava, afinal, sempre quis ter bons resultados.

Um tanto quanto perdido, não sabia o que fazer. Aliás, sabia em partes. Eu tinha uma solução simples, mas que não seria tão fácil de obter: minha mãe. Ela escrevia bem, e poderia me dar uma ajudinha, pensava. E não tardava para que com o lápis preto e o caderninho de rascunho – nunca no meu período de alfabetização fazia minhas tarefas definitivamente no caderno – fosse amuado e com certo receio pedir à minha mãe para que me ajudasse naquela árdua missão.
Primeiro, ela lia o enunciado e tentava me ajudar a pensar uma forma de eu escrever o que tinha de sê-lo. Seu esforço em me ajudar era grande, recordo-me bem, mas eu continuava a não produzir nada. Perguntava quais minhas ideias sobre aquilo, o que me vinha à mente quando via aqueles desenhos. E eu patinava na mesma lama de sempre.

Até que um dia, depois de muita insistência, minha mãe tomou meu lápis – que eu já levava até ela muito bem apontado no Faber-Castel – e fez ela mesma toda a história. Meus olhos devem ter brilhado e meu sorriso tomou todo o espaço de uma orelha à outra. Ela leu para mim, e na minha opinião estava perfeito. Quer dizer, era demais para minha capacidade, e para a professora não perceber que não era eu que havia escrito, pedia para dizer as partes que ficavam excessivamente grandes ou de difícil leitura. Eu estava radiante, e para uma criança aquele gesto representava a eleição de melhor mãe do mundo.

Confesso que em algumas outras vezes esse fato se repetiu. Claro que ela sempre pedia que eu me esforçasse. Puxava minha orelha quando não fazia bem feito, chamava-me à atenção quando começava a distrair-me, e proporcionava os melhores meios para que eu tivesse uma boa educação. Ao voltar os olhos do hoje para o ontem, vejo como esse fato, de minha mãe escrever minhas redações lá no primário, foi importante para mim. Como foi importante ser envolvido por este véu, através dum gesto tão simples, de amor e carinho.

Se hoje tenho a escrita como uma das paixões de minha vida, cheirando a um vício sadio, é porque naqueles tempos o fardo da redação que eu deveria carregar recaiu sobre outros ombros. Foi compartilhado. Se por acaso devesse eu enfrentar todas aquelas pautas, poucas é verdade, mas infinitas à minha pequena razão, poderia ter sido esmagado pelo peso do dever de casa. E quando o peso é maior que as forças, ele vai pressionando até causar uma ferida, chamada trauma, e que demoraria muito para depois cicatrizar.

Hoje já não é mais minha mãe que escreve minhas redações, artigos, resumos e resenhas, não porque ela não mais o queira, mas por que seu filho cresceu. Não é ela que escreve diretamente, porque tenho certeza que de tudo o que dela aprendi, no fim das contas, alguma característica trago para o papel, como para este que agora vou findando. Uma lauda não passa sem que eu pense no que ela acharia, qual opinião – sempre verdadeira e criteriosa– ela emitiria. Tanto que a primeira pessoa a ler tudo aquilo que escrevo, com a minha forma característica, como gosta de dizer, continua sendo ela. Seja pelo papel ou pela tela do computador.

Tudo isso escrevo não para que seja lido pelas multidões. Simplesmente escrevo porque um dia não gostava de escrever. E foi minha mãe que tomou minha mão, mostrou-me o caminho, e não me deixou só. Naquele tempo em que o joelho vivia ralado, o rosto era desprovido de acnes e alguns tantos dentes ainda eram de leite, eu via naquele gesto de escrever de minha mãe um “favorzão” que ela fazia para mim. Hoje vejo naquele feito uma obra maternal, uma fagulha do Amor Divino, um grandioso gesto, sem beijos e abraços naquele momento, de muito carinho e amor. Por isso escrevo. Pois meu coração ama, e agradece. Obrigado, mãe!

Curitiba, 09 de maio de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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terça-feira, 4 de maio de 2010

O som do tempo

5 comentários :
Ouço vozes. Ouço nada. Talvez tudo e um pouco mais.
Nas ondas sonoras embaladas pelo vento,

há uma música simplesmente peculiar.
Soa como ofensa aos apressados,
tranquilidade para os sãos.
Inaudível tantas vezes,
eloquente em outras.
Incessante ritmo.
Simples assim.
Um tic.
Um tac.
Vida.
Fim.
Ou começo.
Da areia que cai.
Do som que não para.
Da ampulheta a ser invertida.
Do ritmo frenético das pernas pálidas.
Esperando o esperado, julgando o futuro.
E o fim encontrando o começo, nos perdemos.
Na vibração desta música, que não cessa. A morte.
O ser volta a ser, na plenitude de sua existência. O Belo.
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