sábado, 11 de dezembro de 2010

Contando e cronicando…

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O cultivo de maçãs e as maçãs do cultivo

Eu estava de fato muito ansioso. Muito não, muitíssimo. Foram anos de trabalho, suor, esforço e dedicação em cima de um único projeto: transportar seres humanos. Meus dedos já não mais possuíam unhas, roídas pelo nervosismo que me apossava. Se fosse apenas essa a questão, do transporte, eu estaria muito mais tranquilo, mas o problema era por onde eu desejava transportar o ser humano. Não seria pelo mar, pela terra, muito menos pelo ar, mas seria mesmo por uma linha telegráfica. No princípio, pode até parecer engraçado devido à aparente loucura imaginada, mas confesso que por certos momentos pensei que as dificuldades de um projeto dessa grandeza excederia minhas capacidades intelectuais para propor um desenvolvimento a este engenhoso plano que muitos, ao tomarem conhecimento, chamaram-no de louco, fruto de devaneios, impossível de se realizar.

telegrafoEu porém, coloquei em minha cabeça que isso era possível e que esta gigantesca invenção deveria aos poucos tornar-se uma realidade. Pois bem, a primeira parte a se executar foi transpor para o papel aquilo que eu tinha em mente e criar uma teoria com fundamentos para após tudo isso, para que eu tivesse crédito na praça. Muitas vozes diziam que essa ideia era impraticável, mas eu dava de ombros para toda essa gente. Até que em uma manhã, um ser meio esquelético, alto e magricela, óculos apoiado em um nariz fino, poucos cabelos e mãos nos bolsos, surgiu em minha porta, com uma proposta de patrocínio ao meu projeto. Num primeiro momento estranhei, parecia ser muito milagre para pouco santo. Mas depois de meia dúzia de palavras trocadas, explicou-me que a notícia dessa minha teórica criação havia chegado, junto com os ventos gelados do fim do outono, ao oeste. Pensei, mas não titubeei, e um aperto de mão foi o ato final do acordo que naquele momento firmava com Jobs, que me entregou um cartão e em retribuição dei-lhe uma maçã, de meu próprio pomar, a qual ele deu apenas uma mordida e colocou na maleta marrom. O tempo foi se passando, e na medida em que a areia da ampulheta ia escorrendo, meu projeto aumentava cada vez mais, em detalhe e em dificuldade de execução prática.

A notícia desta minha invenção foi espalhando-se pelos quatro quantos. Primeiro, apareceu um repórter de uma rádio provinciana, destas de baixa audiência e pouca verba, depois, um jornal da cidade vizinha, até que sem eu tomar conta, já estava nas manchetes do Canal 8, o preferido da população da Capital. O prefeito compareceu em minha oficina afim de posar para um retrato ao meu lado e neste embalo, recebi um telegrama do Presidente da República que, ao ver que tudo era mais sério que ele imaginava, pediu cautela no momento dos testes.

Mas eis que o grande dia chegara. Os postes, pontes de apoio das linhas, já haviam sido checados, o fluxo de energia elétrica também. E para a pessoa que seria transportada, construí uma câmara, sob as mesmas propriedades de um telégrafo, mas em dimensões proporcionais não mais a sinais, mas a um ser humano. Tudo parecia estar pronto. Só parecia, pois quando caminhava para o botão verde, alertaram-me que faltava uma coisa, a mais elementar: não existia a cobaia. Eu tinha certeza que havia feito um trato com um suicida para que ele fosse a primeira pessoa a ser transportada no dia de teste, mas tanto era meu pânico de alguma coisa dar errada que eu afirmei, após olhar ao redor, que faltava a cobaia. Um bafafá tomou conta do descampado onde tudo acontecia e eu percebi que as pessoas, vagarosamente, davam passos para trás, levadas pelo medo de serem escolhidas. Transtornado e sem falta de opções, propus que eu mesmo entrasse naquela câmara e fosse transportado. Mas fui impedido por Jobs, que segurou em meu braço e disse que se eu fosse e algum problema surgisse, ninguém saberia resolver. Perguntei-lhe quem poderia ir, e num ato heróico, Jobs se dispôs. A multidão aplaudia. E meu sócio entrou na câmara. Tudo pronto, apertei enfim, com temor e tremor, o botão verde. Muitas faíscas, alguns estalos, um forte barulho e por fim um ruído tão agudo que fez os espectadores taparem seus ouvidos. E Jobs já não mais estava entre nós.

Havia ao meu lado um telégrafo, para eu receber a mensagem de confirmação da chegada da cobaia no fim da linha. Mas só existia o telégrafo, e ele ali permaneceu inerte, sabe-se lá Deus se não até hoje, pois a mensagem nunca chegou. Jobs desapareceu diante da vista curiosa de todos e não reapareceu jamais. Eu fiquei verdadeiramente abalado, e não sabia o que fazer. As autoridades, também não. Fui, depois de muita discussão entre políticos, militares, imprensa e civis, condenado a viver em reclusão total, longe de todos, pois acabei me tornando elemento de alta periculosidade, por um crime que os competentes juízes não sabiam nominá-lo.

O que mais me encabula nestes acontecimentos todos que aqui descrevi de forma incompleta e apressada, é o mistério do fim que levou Jobs. Mas depois que saí do estado de choque, ao arrumar minhas coisas, percebi que não havia mais nmaca-mordida-150x150enhum papel, rascunho, projeto, cálculo e anotações de minha invenção frustrada. Tudo desaparecera misteriosamente e a única coisa que encontrei em cima de minha prancheta foi uma chave, grande e dourada envelhecida, apoiada em cima de um recado que dizia exatamente assim: “Enquanto uns se deleitam no sucesso, outros dormem entre enxadas e arados”. Era o que me faltava, um enigma a esta altura do campeonato, quando eu deveria deixar a cidade. Mas eu sabia de onde era aquela chave. Era do cubículo onde eu guardava as ferramentas que eu usava em meu pomar de maçãs. Apressei-me até lá e tremendo de raiva abri a porta de madeira que não demorou a ranger. Deparei-me simplesmente com um homem estirado no chão, justamente o suicida que eu havia tratado de ser minha cobaia. Parecia que estava dormindo, mas estava morto. E ali não havia mais nenhum enigma, mas simplesmente, em cima de sua barriga, uma maçã. Não uma maçã qualquer, mas uma maçã com uma mordida somente, e do lado direito de quem a olha, como eu a ol hei.

O fato é que a partir deste dia as linhas de telégrafo nunca mais funcionaram. Todos os equipamentos foram trocados por novos, as linhas substituídas por outras, e ainda assim as mensagens ousam não caminhar. E eu aqui, entre quatro paredes em um lugar qualquer, escuro e mal cheiroso, muitos anos depois daquele fatídico dia, resolvi escrever essas linhas neste meu velho e surrado ‘diário de bordo’, dos tempos em que eu ainda não sonhava em transportar o homem para lugar nenhum, para fazer o tempo passar.

Mas espere. Se os telégrafos não mais funcionam, devem ter procurado um novo meio efetivo de comunicação. Essa pulga que pulou atrás de minha orelha me fez correr até a pilha de jornais que, sem ler e nem ao menos passar o olho, eu jogava direto no porão. Lá entre muitas folhas monocromáticas encontrei uma capa que estampava na página principal uma maçã, com uma mordida do lado direito, acompanhada da manchete: “Jobs é o novo homem forte da tecnologia”.

Isso bastou para mim. Através deste jornal, todas as perguntas foram respondidas. E eu nunca mais cultivei maçãs.

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