domingo, 14 de junho de 2009

Um comentário :

Nosso Medo e Nossa Fé


“A única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo”
(Josué de Castro)


Sempre fui muito curioso quanto a entender o ser humano. Os porquês que se acendem em minha mente não se referem ao surgimento do Universo, nem ao seu fim, quanto menos ao objetivo que o homem tem ou terá, se vive e viverá em outros mundos ou outras vidas; mas sempre me tocou quão intrigante é esta máquina tão complexa, com inúmeras particularidades, capaz de tantas descobertas e realizações, mas que carrega em si tantas dúvidas e mistérios a respeito do seu próprio ‘eu’.

Portador de inúmeras emoções, o ser humano possui uma, tão primitiva quanto interna que o faz acuar: o medo. Sabe-se, conforme nossa psicologia, que o medo é experimentado normalmente em face de uma ameaça, quando o perigo se faz presente. E recentemente, com tantos acontecimentos que tomaram proporções gigantescas na mídia como um todo, aquelas indagações referentes ao ser humano pulsaram com mais vigor em meus pensamentos.

Quando surgiu, há alguns meses, o surto da Influenza no México, a famigerada Gripe Suína, o mundo todo se viu tomado de medo de uma epidemia que evoluiria para uma pandemia, que poderia tomar proporções da Gripe Espanhola e dizimar grande parte da população mundial. Tentou-se evitar o pânico, mas não foi possível evitar na maioria dos seres humanos o medo. Medo de contrair a doença. Por quê? Por que o ser humano tem medo de morrer, se apavora perante a morte de seu corpo. E aí chegamos a um ponto chave de tantas reflexões.

É natural do ser criado ver-se acuado perante o desconhecido, logo que segundo a ciência, ao medo normal o homem é, muitas vezes, inadaptável. Não é necessário entrarmos nas propriedades do medo, como as fobias, o medo neurótico, mas somente o medo real, normal, distinguidos pela psicanálise. Então nos perguntamos: porque o ser humano teme tanto a morte? E essa pergunta desafiadora é um tanto quanto simples - quando não há exceções patológicas - de se responder: o ser humano teme a morte porque não vive plenamente o presente, sem fortalecer o suficiente ou nada fortalecendo sua fé, e se não há fé, força motriz, há medo.

O ser humano é tomado pelo medo de tantas coisas porque teme a morte. Ora, este é nosso fim último, o inevitável, aquele mistério que um dia a todos revelará sua face. Porque então temer aquilo que é certo que um dia acontecerá?

Jesus Cristo percebeu em seus discípulos o medo da morte quando uma tempestade afligia o barco em que estavam e repreendeu-os: “Por que tendes medo assim? Ainda não tendes fé?” (Mc 4, 40).

O ser humano tem medo, pois teme o fim. Contudo, se eles vivessem, se nós vivêssemos as virtudes, a morte, este destino prefixado chegaria nobremente e a contemplaríamos sem medo algum, pois estaríamos certos da Vida Eterna, afinal, “que outro fim temos nós senão o se conseguir o reino que não tem fim?” (Sto. Agostinho, De Civitate Dei).

Outro caso, com o perdão da expressão, no mínimo curioso, é o da queda do AirBus da Air France no Oceano Atlântico. Após essa lamentável tragédia onde todos morreram, surgiu a pergunta: Você tem medo de andar de avião? E o medo em muitos aumentou. Revelou-se o medo da morte. E isto quase me levou a crer que o medo maior, o de morrer, dos quais derivam os outros medos, parece inerente à espécie humana. Todavia, lembro-me do dito popular: ‘Ninguém morre de véspera’, e a esta afirmação popular vem de encontro à divina: “Não temas a sentença da morte, lembra-te dos que te precederam e dos que te seguirão. É uma sentença do Senhor para toda a carne: porque recusares a vontade do Altíssimo?” (Eclo 41, 3-4).

Há também, e não podemos esconder o medo do sofrimento, o medo da dor, o medo da fome. Nestes casos, mais uma vez, não devemos aceitar o medo, pois assim seremos covardes, mas devemos enfrentá-lo, sendo corajosos para ir ao encontro do que sofre e alivia-lo; vencer o medo para socorrer o que padece e ajuda-lo; superar o medo para alimentar o que tem fome e sacia-lo. Por medo, o homem não pode se omitir diante das dificuldades. Quem enfrenta estes males terrenos, com amor, enfrentará da mesma forma a morte e não a temerá, pois do outro lado encontrará o Eterno.

E o medo poderia render tantas outras páginas, a morte muitos outros tratados e a fé muitas outras sumas. Mas concluo unindo-me à voz do mestre Agostinho na afirmação de que é necessário “temer a alma sua própria morte e não a morte do corpo”.

O Arcebispo Emérito de Milão, Cardeal Carlo Martini, afirma em seu livro (Diálogos Noturnos em Jerusalém) lançado recentemente, que se preocupa quando as pessoas não pensam e se deixam levar. Para ele, “quem reflete segue em frente”. Por isso aqui escrevo, desejando seguir em frente nesse mundo que não pára de girar, com muitos outros que sei, me acompanharão nessa caminhada, temente somente a Deus, superando obstáculos e enfrentando gripes, aviões, oceanos... a escuridão deste exílio para encontrar a Luz da liberdade Celeste, na firme confiança nas palavras do Messias: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32).

E o medo, ah, este fortalece minha fé e, junto com o Apóstolo dos Gentios, exclamo: oh morte, onde está sua vitória? Para mim, viver é Cristo. Morrer é Lucro (cf. 1Cor 15, 55 e Fl 1, 22).

“É valiosa ao Senhor a morte de seus fiéis” (Sl 116, 15).
Dado em Cornélio Procópio (PR), dia onze de junho, quinta feira, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, do Ano do Senhor de dois mil e nove, 152° dia de nosso noviciado.

Edvaldo Betioli Filho
Noviço da Sociedade do Apostolado Católico
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