domingo, 22 de janeiro de 2012

No princípio...

Um comentário :

NASCE 2012


Se Toquinho com dois riscos tinha um guarda-chuva, com dois cliques hoje temos o mundo. E quanto mais temos posse do mundo como informação, menos possuímos a essência de cada coisa, menos compreendemos o valor de cada ser. Quanto mais avançamos no domínio global, mais recuamos na conquista interior. Quanto mais pensamos que somos bons, mais longe ficamos da Bondade. Quanto mais inteligentes imaginamos ser, mais ignorantes nos tornamos... E sob as sombras destas reflexões eclodiu meu 2012.

Nasceu diante do anúncio do fim do mundo em dezembro. Ainda existe alguém de raciocínio mínimo que acredita ser 2012 o último ano de todos os tempos? Se a contagem do calendário dos Maias acaba nesta data, isso significa simplesmente que aquele povo se ocupou de outra coisa.


Este ano nasceu trazendo o cheiro de um bom livro. Bom, eu escrevi. Porque também no papel e tinta temos tantas agressões, pelo marketing, pela venda, pelo dinheiro. Inclusive, amigo leitor, não acharei ruim se imediatamente você fechar esta janela, trocando-a por um bom livro. Mas, repito que seja bom... Pois nossas massas estão cada vez mais manipuláveis. Assim nascem as ditaduras e assim se perpetuam.
Meu 2012 também nasceu diante da efígie da simplicidade. Porque estamos complicando cada dia mais a simplicidade própria dos dias. Estamos revestindo com uma carapaça as nossas fraquezas para iludirmos a nós mesmos. Queremos esconder nosso vazio com o brilho dos LEDs tão frios. Os sinais digitais, a alta definição, a transmissão acelerada, as redes sem fio... tantos instrumentos que só contribuem para que se aumente o lixo despejado em nossas cabeças. Salvam-se aquelas que não permitem...

O progresso da técnica está manipulando as opiniões, influenciando seres de vida interior apagada. 2012 nasce precisando de reflexão: ouve-se muito aquele rapaz Teló (e aquele seu dejeto que chamam de música); fala-se muito daquela menina que estava no Canadá, espiam a vida alheia em um programa que representa a verdadeira alienação e ociosidade. Tudo equivale ao vazio que não será preenchido enquanto não contemplarmos o Mistério, e não nos colocarmos como seres criados à imagem e semelhança de Deus. Quero um 2012 sério. Não carrancudo, mas com seriedade, pois a sabedoria implica justamente o espírito de seriedade.

A maior marca deste ano foi nascer com o grito agônico da necessidade da Fé, Oração e Conversão: o navio italiano que tombou, o dique carioca que rompeu. Aumentemos a intensidade: os cidadãos haitianos sujeitando-se a tudo para viver; a cracolândia paulistana insolúvel enquanto não valorizável; o soldado estadunidense absurdamente urinando no cadáver; os homens e mulheres da Somália (e da Coréia do Norte, e de Cuba, e da China, e do Brasil...) morrendo de fome por disputas dos abastadíssimos generais.

Sim, a indigência de nossos dias não é tecnológica, como pensamos e corremos para suprir, mas espiritual. A vida está sendo considerada cada vez menos como dom que se transmite e cada vez mais assimilada como uma fatalidade. Se assim continuarmos, desembocaremos inevitavelmente no desespero.

Mas este nosso novo ano também tem a possibilidade de começar com o suave odor da esperança. Onde tiramos o eu e colocamos Deus, floresce a boa semente, colhe-se o bom fruto. Nasce 2012 necessitando de amor. Não o amor frívolo das bocas bêbadas do dia 31 de dezembro, à beira mar. Mas o Amor. “O que não se faz pelo Amor e para o Amor acaba invariavelmente por fazer-se contra o Amor” (Gabriel Marcel).

Nasce 2012 precisando de silêncio, de recolhimento, para nascerem forças do amor e da humildade. Floresce 2012 com a necessidade de lutarmos por aquilo que cremos, pela Fé que professamos. Um novo ano, na aguerrida luta pela conquista e prática do bem.

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Reflexão

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"Portanto, ou bem será a legitimação cristã – única possível – da vida e do sofrimento, do Homem e do próprio Deus, ou bem a revolta metafísica, a destruição absoluta no demoníaco, a queda cega no abismo, onde o não-ser, em um sofrimento assustador, tenta engendrar o ser e devora as malformadas sombras geradas e paridas por ele mesmo. Pois a alma humana, no momento em que perde a esperança em Deus, tende inevitavelmente ao caos [...]."

Ivanov Viatcheslav, Dostoievski, tragédie, mythe, religion. p. 57.

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