sábado, 22 de setembro de 2007

ENSAIO

Um comentário :
Caríssimos, os tempos modernos que à nossa porta batem e em nossos lares entram, são os principais incentivos de tudo o que presenciamos a olho nu. Uma nova cultura surge de mentes fracas para influenciar e atingir mentes mais debilitadas ainda. Acompanhamos tudo passivamente, como se esta crise, que chamamos de crise moral, não nos atingissem. Aqueles bons valores proferidos outrora, da visão mais pessimista, são hoje como água no deserto. Da visão mais otimista, e desta devemos compartilhar sem entrarmos em uma utopia, esses valores perduram por conta da fé, uma vontade interior inabalável que resiste às armadilhas a nós impostas. E devo alegrar-me por ainda existir uma maioria que opte pelos bons ensinamentos que nos transmitem, além de muitos outros, ordem e respeito.Mesmo aplicado nossos esforços, vemos uma ditadura preocupada com a casca, esquecendo que é o interior do fruto, na maioria das vezes, é o elemento mais importante. Vemos, além de tudo, uma busca incessante por um prazer que nunca será encontrado. O pseudo-sucesso proveniente de erros disfarçados leva a uma autoconfiança que se baseia simplesmente no próprio eu, sem considerar e desprezando aquilo tudo que aprendemos, principalmente o senso que guia uma vida rumo ao amanhã. Nestas mentes influenciáveis e além de tudo, decadentes, reina a fraqueza sustentada pela soberba que surge no ponto em que se pensa que são plenos portadores de toda e qualquer razão, tal soberba que diversas vezes há de levar ao fundo do precipício, este, cavado pelas próprias mãos. Só aí se percebe que essa corrente não é digna de confiança e que ainda sim, os valores esquecidos, pendurados na parede da memória do passado são de grande serventia em meio aos tempos atuais. Mas infelizmente, a essa altura, tudo pode ser tarde demais.Queremos que vossas senhorias vejam, enxerguem e percebam que certos rumos, que muitos tomam, podem levar a lugar algum. Que essa utopia, que exalta uma vazia vaidade e uma nada fundamentada ambição, seja derrotada por pessoas que acreditam na conservação do bem, de costumes e valores. Talvez, vejamos em nosso passado raízes dessa oca ditadura e não consigamos consertá-la, mas é sabido de todos que poderemos aniquilar esse mal em nosso futuro. Em nossas mãos, a chance de ver o sol nascer de uma outra forma. Vós outros que acreditais, levantai-vos, vamos.
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terça-feira, 11 de setembro de 2007

ENFIM

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O velho, de cabelos brancos, acordou aquela noite serenamente como se alguém o tivesse chamado. Olhou pela janela coberta por cortinas empoeiradas e viu por entre elas a rua vazia, nela havia nada mais se não a escuridão. Sorriu. Calçou seu chinelo de pano, aquele que sua senhora sempre deixava aos pés da cama, e que desde que ela partira, estava guardado. Hoje ela já não estava mais de seu lado, antes, sua ausência causava dentro dele o mesmo vazio que sentira em sua juventude quando viu a mãe partir daquela mesma casa, na pequena Surrey, mas hoje ele não sentia nada. Seu passado revirado em sua memória era mais um motivo para dar seus primeiros passos pelo quarto cheirando a mofo. Vestiu o seu mais belo traje, o qual a sua senhora mais gostava. Lembrou-se da última vez em que estavam juntos, recordou o último afago que ela fez em seus alvos cabelos, sentiu novamente o seu suave perfume. Suas pernas que já não eram mais as mesmas de algum tempo atrás, açoitadas pelos tremores de sua doença, hoje estavam firmes, seguras, assim como suas lembranças. Passou pela porta de madeira nobre, deu mais alguns passos rumo à sala, que fora tão importante no passado, recebendo autoridades e personalidades. Curvado, passou as mãos pelos quadros pendurados na parede, quadros que por muitas vezes, viu seu pai os admirar. Forçou os olhos para ler as pequenas inscrições gravadas em um pedaço de papel emoldurado. Datava 1945, se lembrara bem quando ganhara aquilo ao término da Segunda grande Guerra, fora orgulho de seu pai, o famigerado General Gilwell. Chegou à sala, sentou na velha cadeira de balanço que um dia pertencera a seu avô paterno. Repousou os pés sobre uma almofada. Olhou, olhou, olhou. Balbuciou algumas palavras que não estavam no seu idioma, provavelmente, era latim. Olhou por tudo novamente e relembrou aquela sala cheia, momentos que nunca saíram de sua memória, como as discussões sobre a crise de 1929, sua conversa com seu pai sobre o seu ingresso à guerra e sobre o seu namoro com a mais bela jovem daquele condado, que seria sua amada por toda a vida. Repousou as magras mãos sobre os joelhos e depois de um longo suspiro exclamou de forma uníssona: “Enfim”. Levantou a mão direita, como se alguém tivesse segurando. E devo confidenciar que realmente parecia impossível não haver ninguém tocando aquela mão. De uma forma natural, como a folha que cai da árvore no ápice do outono, abaixou a mão e fechou lentamente os olhos. Agora, não seria mais possível ver novamente seus penetrantes olhos azuis.

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