terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um comentário :

Relâmpago

O compromisso esvaiu-se na dúvida,

Na prepotência, a humanidade.

Diluiu-se a sensibilidade no prazer,

O amor no vácuo.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

No dia dos pais…

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Memórias

(Parte II)

Por qual motivo gostamos tanto de cultivar lembranças e alimentar memórias? Esta interrogação acompanhou-me desde quando escrevi a primeira parte destes relatos pessoais alguns meses atrás, e notei que o campo das recordações é muito mais vasto do que nós imaginamos. Se fizermos esforços concentrados, conseguiremos penetrar naqueles mais profundos recônditos da alma e viajar nas nuvens das sensações humanas que com o tempo vamos concebendo, cultivando e arquivando dentro de nós.

FatherAndSonApraz-me muito relembrar velhos fatos, acontecidos inesquecíveis, pois são eles que nos explicam tanto do presente e nos orientam para o futuro. São as lembranças que mesmo em momentos tão escuros do hoje nos trazem uma luz radiosa vinda do ontem, e nos enchem de alegria. Se contemplarmos bons e saudáveis momentos e nos alegramos por e com eles, é porque foram marcados por uma presença. E quando existe a experiência da presença em algum momento, noutro com certeza a solidão parecerá equivocada.

A presença é peça chave de um quebra-cabeça psíquico-emocional. É parte insubstituível da formação humana, como um oleiro que vai modelando o vaso a partir de um punhado de barro. Novamente, através das letras, quero compartilhar minhas memórias, porque elas são essenciais, e fazem com que nós nos compreendamos e tomemos consciência que somos.

Primeiramente, não posso deixar de lembrar que tive em minha pequena trajetória de vida muitas presenças inigualáveis e excelentes. Foram pessoas que de uma forma ou de outra contribuíram para minha formação com o simples – e complicado – fato de ser ao meu lado. Lembro-me, sobretudo hoje, de alguém que acompanhou meus primeiros passos e em uma linha evolutiva, minhas primeiras opiniões.

Uma de minhas mais caras memórias aconteceu em um agosto. Eu aguardava o resultado do vestibular que havia feito um mês antes. Essa espera sempre é aflitiva, mas não angustiante, pois existe a esperança. E justamente neste dia, fui com meu pai à capital, a fim de realizar mais uma revisão ortodôntica. Minha apreensão não poderia ser maior, logo que no horário marcado para a divulgação da lista de aprovados, estávamos dentro do carro, no meio da estrada, em uma sexta-feira ensolarada. Tentávamos escutar pelo rádio, mas o sinal da freqüência modulada, naquele lugar, era instável. Foi então que meu pai, num gesto para mim inesperado, parou no acostamento para dois nomes depois ouvirmos o locutor anunciar o meu. Foi uma explosão de alegria, comemorado como um gol no estádio – fato que também fui agraciado pela presença de meu pai. Minha felicidade era imensa, mas aumentou ou ver que também meu pai feliz ficara. Estava eu feliz por mim e por ele, afinal, havia ele dedicado-se tanto a mim, a iniciar pelo princípio da vida, que eu sentia que ele simplesmente merecia.

Foi o suficiente para marcar minha vida até os dias de hoje, assim como será até o fim, não me resta dúvida. Então alguém pode ler estas memórias e indagar-se se tudo isso foi tão importante, se disso depende meu amor por ele, ou se somente esta é a lembrança que tenho de meu pai. Absolutamente, não.

Estar perante alguém, encontrar com alguém, viver com alguém, e que sintamos sua presença, tal é o enriquecedor e por que não dizer, o misterioso por excelência. O sentido talvez possa permanecer oculto, mas esse fenômeno da presença é providencial. Nesses momentos captamos a intuição de que somos. Somos pelo amor, pela dedicação, pela entrega e pelo sacrifício do outro por nós. Sentir-se próximo por laços inquebrantáveis faz de nós não objetos, mas seres. Não sendo o ser mais um substantivo, mas um verbo. Alguém amado. Como eu fui e sou pelo meu pai.

Muitos dizem que sou fisicamente semelhante ao meu progenitor. Traços faciais fazem com que seja externa a herança genética que recebi dele. Gabriel Marcel, filósofo francês, dizia que tudo aquilo que se herda, se recebe numa atmosfera de gratidão. Por isso escrevo outra vez minhas memórias, para agradecer mais um ano que passou, por uma vida vivida juntos, com tantos momentos e, sobretudo, presenças inesquecíveis.

Poderia continuar relatando muitos outros fatos, desde comícios sob sol escaldante, passando por tantos problemas de matemática até o apoio incondicional ao meu ingresso à vida religiosa. Mas o que mais me realiza é a presença dele ao meu lado nos dias de hoje: uma mão para acolher, uma palavra para orientar, um ensinamento afim instruir e uma vida pela família a doar.Brothers

Cantou o poeta em seus versos que “toda imagem no espelho refletida, tem mil faces que o tempo ali prendeu, todos têm qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu”. Tenho, de fato, muito de meu pai. E espero, verdadeiramente, poder refletir esses dons a meus inúmeros filhos que num futuro receberei. Já não será uma prole sanguínea, mas isso não impedirá que eu seja espelho daquilo que recebi: superar obstáculos com perseverança, doar seu suor por um objetivo, lutar sempre e desanimar jamais; guardar os seus, ser disponível a quem precisa e, sobretudo, amar sem reservas.

Pai, obrigado por naqueles tempos de estudos e provas me ensinar que é muito melhor não deixar nada para amanhã se pode ser resolvido hoje. Por isso não espero mais para deixar registrado meu tão miúdo agradecimento a uma pessoa tão grande. Pela sua presença, nessa vida que é uma missão, minha sempiterna gratidão. E se alguém um dia me perguntar por que escrevo memórias, responderei simplesmente porque em minha vida houve uma presença. E isto bastará, pois palavras não são suficientes, é necessário sê-lo para outro. Obrigado, pai!

Curitiba, 08 de agosto de 2010

Edval do Betioli Filho

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O faz de conta que acontece…

7 comentários :

O bode e o jardim

 

Qual a dimensão da sua imaginação? Agora não importa que ela seja grande ou pequena, o que vale é você deixar-se levar pelo espírito da fábula. Aqui não há anões, cigarras, formigas ou grilos falantes. Mas existe uma gota da tonalidade acinzentada do cotidiano que apresenta para você, de forma simples, rápida e fácil, a história de um bode em seu jardim. Mas deixo um alerta: não conte essa história para as crianças. Por não haver fadas, encantos e feitiços, e sim um gosto amargo de realidade, talvez você possa privá-las da esperança de um mundo melhor!

bode Tudo começou há algum tempo. Havia um pedaço de terra que aos poucos foi sendo cultivado. Ele não ficava muito longe, nem em “tão, tão distante”. Mas as coordenadas geográficas apontavam para bem debaixo de nossos pés. Ora recebia bons tratos, ora era danificado. E assim, em uma gangorra de bons e maus proprietários, durante anos e mais anos, o jardim foi tomando uma forma, recebendo suplementos, aditivos, e na medida certa, adubado. Na rua, o jardim não estava sozinho, tão pouco no bairro ou na cidade, que era o limite máximo dessas porções de terra. Existiam outros jardins, outras propriedades de tamanhos variados, cada um dentro das capacidades próprias de desenvolvimento.

Alguns possuíam grama mais verde, outros estavam repletos de pragas, muitos ainda eram pequenos, mas bem aplainados, e outros embora grandes, eram por demais acidentados. Todos os jardins ficavam defronte suas respectivas casas, onde habitava a população, que era seu proprietário. Mas eles comungavam de um fato: todos havia um jardineiro.

Estamos diante de um jardim cuja história explica porque chegou até os dias de hoje tão depreciado. Mas de alguns anos para cá, muitas foram as oportunidades para que o jardim florisse e se mostrasse o jardim dos jardins. Umas foram aproveitadas, outras não. Chegou-se a vender para outros proprietários algumas espécies nativas daquele solo, mas o jardim conseguiu, por meio de seu jardineiro, entrar nos trilhos corretos. Para que seu sucessor fizesse a máquina andar, era preciso somente colocar a lenha para a caldeira borbulhar. Aconteceu que todo jardineiro não fica perpetuamente no cargo – uma das riquezas deste jardim, a democracia – e chegou a hora da população, que era a proprietária deste pedaço de terra, escolher o novo jardineiro.

Todos foram convocados, e eis que uma grande surpresa abateu-se sobre a população. Eles não haviam elegido mais um jardineiro, e sim um bode! Oh, como poderia isso ter acontecido? Contudo, se o povo e sua maioria escolheram que assim fosse, que então se seguisse a vida do jardim.

O problema era que, como sabemos, o bode não faz distinção daquilo que vê em sua frente, e trata de empurrar para o estômago tudo o que encontra. Não importa se são rosas, árvores que produzem frutos ou espinheiros. Se ele tem fome, abocanha vorazmente, para algum tempo depois percebermos o resultado: adubo por sobre adubo, fenomenal.

No princípio de seu reinado, o bode começou a mastigar as poucas rosas que havia sido cultivadas pelo jardineiro anterior. Não importava se eram dotadas de beleza, perfumadas ou espinhosas, ele comia ferozmente. Terminada algumas rosas, partiu para as árvores frutíferas. Mastigava-as. Aquelas que escapavam de sua gula, dizia ele entre um brinde e um arroto, que era feitio dele, bem sabendo que seu mérito foi só adubar o já plantado. Mas para a sorte da população, algumas poucas sementes voltavam para a terra através de seu natural adubo. E assim, nem tudo ficou destruído, pois enquanto comia o que existia, defecava o que viria a existir. E em algumas pequenas coisas, até que deu certo.

Todos notaram também que o bode permaneceu por lá, na legalidade da lei, mais tempo que deveria. E para justificar sua permanência, quis mostrar serviço. Mas, pobre bode, em seu gigantesco ego e prepotência inimaginável, tratou de meter os chifres em um belo espinheiro pensando que era o bode mais popular de toda a cidade. E imaginando que podia mais que tudo e todos, chegou a cogitar que queria ser presidente da Organização dos Jardins Unidos, só porque um jardineiro certa vez passou as mãos por sobre seus fétidos pelos e disse: “Como são brilhosos!”.

O fato é que o jardim não ficou totalmente devastado, mas perdeu, por culpa do bode, muitíssimas chances de ser o melhor jardim da cidade. A terra era fértil, o clima propício, a localização perfeita. Na tentativa de unir os jardins da Jardinlândia do Sul, foi à derrocada. Tentou até manter acordos com o jardineiro que cultivava e enriquecia espécies atômicas, mas também saiu derrotado e ignorado por todos os outros jardins da urbe. Mas o bode, pobre bode, de tão mínimo que era, conseguiu apenas enfeitar bem seu jardim, uma maquiagem de aparência, entretanto enganadora, e muitos o começaram a aplaudir.

Mas seu tempo de permanecer à frente do terreno já estava chegando ao fim. O que faria ele, para que a enganação continuasse a acontecer e seus amigos, cabritos e cabras, de toda a mal espécie, continuassem a mamar na vaca estatal? Teve então uma brilhante ideia, uma das melhores dos últimos tempos como ele mesmo confessara.

marionete-2Sacou de seu bolso vários retalhos de pano do oportunismo, pegou de sua sombra uma linha da malevolência, passou por dentro da agulha da mentira e alinhavou e costurou um fantoche populista, em formato de mulher, que se encaixou perfeitamente em seus membros. Olhou para aquela sua obra e disse: “Você será a nova jardineira”. E ela começou a ter, pelos poderes mágicos do dinheiro, seus primeiros movimentos.

E o bode começou a passear, por todos os cantos do jardim, até que aquela mentira começasse a parecer verdade de tão repetida que era. E da mesma forma como da primeira vez, com bravatas, carisma e falácias, o bode apresentou seu fantoche feminino ao povo. Como ele não sabia costurar, o artefato ficou mal feito, plenamente remendado e retalhado, sem experiência, opinião e vida própria. Mas isso não importava. O que valia é que ele poderia fazer do boneco uma realidade. E a população, perto da escolha do novo jardineiro, começou a aceitar aquela brincadeira.

O que acontece depois disso, já não se sabe. Ao virar a página, depara-se com ela toda em branco. O certo é que esse espaço aberto será preenchido por letras que continuarão a história dentro de pouco tempo. Esperamos que o fantoche não passe a ser uma coroa para o animal, símbolo de vitória, pois se reinando sob os holofotes o bode já produziu tanto adubo, imagine o que uma marionete, derivada do bode, que cresceu em meio tão lúgubre, poderá fazer. Nem mesmo o pior conto de fadas poderia contar-nos. A única certeza é que se o fantoche do bode conseguir subir a rampa do palácio do jardim e ter a faixa repousada em seu peito, essa fábula jamais terminará com um “e viveram felizes para sempre”.

 

Curitiba, 03 de agosto de 2010

Edvaldo Betioli Filho

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