O faz de conta que acontece…

O bode e o jardim

 

Qual a dimensão da sua imaginação? Agora não importa que ela seja grande ou pequena, o que vale é você deixar-se levar pelo espírito da fábula. Aqui não há anões, cigarras, formigas ou grilos falantes. Mas existe uma gota da tonalidade acinzentada do cotidiano que apresenta para você, de forma simples, rápida e fácil, a história de um bode em seu jardim. Mas deixo um alerta: não conte essa história para as crianças. Por não haver fadas, encantos e feitiços, e sim um gosto amargo de realidade, talvez você possa privá-las da esperança de um mundo melhor!

bode Tudo começou há algum tempo. Havia um pedaço de terra que aos poucos foi sendo cultivado. Ele não ficava muito longe, nem em “tão, tão distante”. Mas as coordenadas geográficas apontavam para bem debaixo de nossos pés. Ora recebia bons tratos, ora era danificado. E assim, em uma gangorra de bons e maus proprietários, durante anos e mais anos, o jardim foi tomando uma forma, recebendo suplementos, aditivos, e na medida certa, adubado. Na rua, o jardim não estava sozinho, tão pouco no bairro ou na cidade, que era o limite máximo dessas porções de terra. Existiam outros jardins, outras propriedades de tamanhos variados, cada um dentro das capacidades próprias de desenvolvimento.

Alguns possuíam grama mais verde, outros estavam repletos de pragas, muitos ainda eram pequenos, mas bem aplainados, e outros embora grandes, eram por demais acidentados. Todos os jardins ficavam defronte suas respectivas casas, onde habitava a população, que era seu proprietário. Mas eles comungavam de um fato: todos havia um jardineiro.

Estamos diante de um jardim cuja história explica porque chegou até os dias de hoje tão depreciado. Mas de alguns anos para cá, muitas foram as oportunidades para que o jardim florisse e se mostrasse o jardim dos jardins. Umas foram aproveitadas, outras não. Chegou-se a vender para outros proprietários algumas espécies nativas daquele solo, mas o jardim conseguiu, por meio de seu jardineiro, entrar nos trilhos corretos. Para que seu sucessor fizesse a máquina andar, era preciso somente colocar a lenha para a caldeira borbulhar. Aconteceu que todo jardineiro não fica perpetuamente no cargo – uma das riquezas deste jardim, a democracia – e chegou a hora da população, que era a proprietária deste pedaço de terra, escolher o novo jardineiro.

Todos foram convocados, e eis que uma grande surpresa abateu-se sobre a população. Eles não haviam elegido mais um jardineiro, e sim um bode! Oh, como poderia isso ter acontecido? Contudo, se o povo e sua maioria escolheram que assim fosse, que então se seguisse a vida do jardim.

O problema era que, como sabemos, o bode não faz distinção daquilo que vê em sua frente, e trata de empurrar para o estômago tudo o que encontra. Não importa se são rosas, árvores que produzem frutos ou espinheiros. Se ele tem fome, abocanha vorazmente, para algum tempo depois percebermos o resultado: adubo por sobre adubo, fenomenal.

No princípio de seu reinado, o bode começou a mastigar as poucas rosas que havia sido cultivadas pelo jardineiro anterior. Não importava se eram dotadas de beleza, perfumadas ou espinhosas, ele comia ferozmente. Terminada algumas rosas, partiu para as árvores frutíferas. Mastigava-as. Aquelas que escapavam de sua gula, dizia ele entre um brinde e um arroto, que era feitio dele, bem sabendo que seu mérito foi só adubar o já plantado. Mas para a sorte da população, algumas poucas sementes voltavam para a terra através de seu natural adubo. E assim, nem tudo ficou destruído, pois enquanto comia o que existia, defecava o que viria a existir. E em algumas pequenas coisas, até que deu certo.

Todos notaram também que o bode permaneceu por lá, na legalidade da lei, mais tempo que deveria. E para justificar sua permanência, quis mostrar serviço. Mas, pobre bode, em seu gigantesco ego e prepotência inimaginável, tratou de meter os chifres em um belo espinheiro pensando que era o bode mais popular de toda a cidade. E imaginando que podia mais que tudo e todos, chegou a cogitar que queria ser presidente da Organização dos Jardins Unidos, só porque um jardineiro certa vez passou as mãos por sobre seus fétidos pelos e disse: “Como são brilhosos!”.

O fato é que o jardim não ficou totalmente devastado, mas perdeu, por culpa do bode, muitíssimas chances de ser o melhor jardim da cidade. A terra era fértil, o clima propício, a localização perfeita. Na tentativa de unir os jardins da Jardinlândia do Sul, foi à derrocada. Tentou até manter acordos com o jardineiro que cultivava e enriquecia espécies atômicas, mas também saiu derrotado e ignorado por todos os outros jardins da urbe. Mas o bode, pobre bode, de tão mínimo que era, conseguiu apenas enfeitar bem seu jardim, uma maquiagem de aparência, entretanto enganadora, e muitos o começaram a aplaudir.

Mas seu tempo de permanecer à frente do terreno já estava chegando ao fim. O que faria ele, para que a enganação continuasse a acontecer e seus amigos, cabritos e cabras, de toda a mal espécie, continuassem a mamar na vaca estatal? Teve então uma brilhante ideia, uma das melhores dos últimos tempos como ele mesmo confessara.

marionete-2Sacou de seu bolso vários retalhos de pano do oportunismo, pegou de sua sombra uma linha da malevolência, passou por dentro da agulha da mentira e alinhavou e costurou um fantoche populista, em formato de mulher, que se encaixou perfeitamente em seus membros. Olhou para aquela sua obra e disse: “Você será a nova jardineira”. E ela começou a ter, pelos poderes mágicos do dinheiro, seus primeiros movimentos.

E o bode começou a passear, por todos os cantos do jardim, até que aquela mentira começasse a parecer verdade de tão repetida que era. E da mesma forma como da primeira vez, com bravatas, carisma e falácias, o bode apresentou seu fantoche feminino ao povo. Como ele não sabia costurar, o artefato ficou mal feito, plenamente remendado e retalhado, sem experiência, opinião e vida própria. Mas isso não importava. O que valia é que ele poderia fazer do boneco uma realidade. E a população, perto da escolha do novo jardineiro, começou a aceitar aquela brincadeira.

O que acontece depois disso, já não se sabe. Ao virar a página, depara-se com ela toda em branco. O certo é que esse espaço aberto será preenchido por letras que continuarão a história dentro de pouco tempo. Esperamos que o fantoche não passe a ser uma coroa para o animal, símbolo de vitória, pois se reinando sob os holofotes o bode já produziu tanto adubo, imagine o que uma marionete, derivada do bode, que cresceu em meio tão lúgubre, poderá fazer. Nem mesmo o pior conto de fadas poderia contar-nos. A única certeza é que se o fantoche do bode conseguir subir a rampa do palácio do jardim e ter a faixa repousada em seu peito, essa fábula jamais terminará com um “e viveram felizes para sempre”.

 

Curitiba, 03 de agosto de 2010

Edvaldo Betioli Filho

Comentários

Cara....to de boca aberta, você escreve muito bem, parabéns.
Adorei a fabula, você é danado mesmo em....conseguiu passar a ideia direitinho, mas creio que o o "companheiro" "molusco" não iria compreender a indireta rsrrsrrs.

Abraços e continue assim.

Iuncto in Chisto, Feliz Vita
(União em Cristo, Vida Feliz)
Este comentário foi removido pelo autor.
Errata:

Iunctio in Christo, Felix Vita
Edner disse…
Sensacional! o conto da vida real. Parabéns pela habilidade com as palavras Edvaldo.
Opa, obrigado pelo seu comentario no meu blog, desculpe não ter comentado na sala de aulas pois não tinha visto ainda.

Ah e de fato, fico bravo quando vc satiriza meus poemas, rsrsrrsr brincadeira.

Obrigado por essa parceria entre nossos blogs e principalmente pela sua amizade.
Abraços.
Anônimo disse…
Parabéns Edvaldo....sabe faria o mesmo...pena que não tenho sabedoria e tanto conhecimento....espero mesmo que o fantoche caia e se esborrache....ai o companheiro vai parar de fazer cenas e até ridiculamente chorar em cadeia nacional......Você é brilhante.
Margareth disse…
Filho... Digo-te: parabéns pelo brilhante artigo. Precisamos de jovens como você, assim como já existiu muito outros que tiveram a coragem de falar e questionar sobre algumas
situações do que acontecia e está acontecendo como agora no
nesse belo jardim.

Que bom que você teve senso de avisar logo no inicio: ”... deixo um alerta: não conte essa história para as crianças.” Pois eu como adulta, me assustei.
Todos os dias, Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo, que nos deixa perplexos. O instante mágico de quatro em quatro ano, é o momento em que um sim ou não pode mudar toda a existência, desse jardim.

Parabéns, mas uma vez. E te desejo coragem, saúde e força, ao longo de toda sua vida, e que Deus lhe abençoe.
Beijo.

Postagens mais visitadas deste blog

Pia Luciani: “Será beato, mas para mim será sempre tio Albino”

Mãe de Deus, Mãe de nossa salvação

Epifania do Senhor