terça-feira, 29 de junho de 2010

São João Batista e o Xadrez

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No tabuleiro da vida

São João BatistaO mês de junho normalmente é conhecido em nosso país pelos tradicionais festejos aos santos Antônio, João e Pedro. Uma tradição que se originou do povo rural, de cultura simples, mas não menos importante que as muitas outras, e de uma fé genuína e verdadeira, que acreditava na poderosa força e intercessão dos três santos que, na certa, estavam perto de Deus e dEle poderiam alcançar grandes graças, sendo que ainda hoje, em muitos lugares, a bandeira dos santos é levantada ao som da oração do santo terço.

Quero pedir licença ao santo de Lisboa ou de Pádua, como queiram portugueses ou italianos, e também solicitar que me perdoe o santo portador das divinas chaves, uma vez que hoje gostaria de escrever sobre o Precursor, João Batista.

Primeiramente, peço desculpas aos leitores, pois não possuo cultura exegética ou grande fundamentação teológica, mas as reflexões que faço de São João, ainda que pareçam pueris, são meditações pessoais, catequéticas, como talvez fizesse o Servo de Deus Albino Luciani, o papa catequista.

Em um tabuleiro de Xadrez, com as peças dispostas na ordem correta para o início de uma partida, é o peão aquele que está à frente de todas as outras. Não importa qual é sua origem, se possui ascendência nobre, como os reis, ou se se vestem de preciosidades, como as rainhas. Suas funções podem ser muitas, pode ficar parado para defender certas jogadas passadas ou avançar para ser apoio às futuras. São oito peças idênticas, perfiladas, que não contando o cavalo, são as primeiras a saírem de seus postos, atentas a qualquer ordem. Não está à frente por um desejo nato, ou por vontade do amor próprio de ser o primeiro e principal personagens da batalha que se avizinha, mas está ali para ser o que, ao preparar as jogadas das peças maiores e mais importantes, recebe os primeiros golpes daqueles que vem na direção oposta. O peão caminha, prepara, abre, golpeia, leva ao chão a outra peça. É peça de tropeço, que incomoda. E assim, vai fazendo parte de um plano, de uma estratégia por uma mente maior que a controla, estando disponível a qualquer momento para ser sacrificada, para morrer, inclusive quando chegar ao último espaço, e for trocada por outra peça. Tudo isso, para proteger, auxiliar, colaborar, afim de que o rei jamais seja derrotado.Peão

Não consegui desassimilar a figura de São João Batista a um peão dos jogos de xadrez. Não quero ser vulgar ou herético, esta jamais foi ou será minha intenção, mas são através destas imagens que compreendemos melhor e nos inserimos de uma forma mais completa na sublime história da salvação, tomando consciência do lugar que nos é cabido.

João Batista veio ao mundo algum tempo antes do Salvador, filho de uma mulher estéril, de um casal de velhinhos fiéis, figurando em sua simples ascendência a importância do antigo. Sendo declarado profeta ainda no ventre materno, o nascimento e a missão do arauto da novidade fizeram com que ele estivesse nesta terra algum tempo antes do Messias, por isso, caminha à sua frente, e O anuncia com a humildade de um servo, bradando solitário no deserto, vestido de pele de animal, alimentando-se de mel silvestre e insetos, embora fosse depois proclamado por Cristo o maior nascido de mulher. Foi o primeiro a lançar-se para aplainar o terreno no qual caminharia aquele que João afirmara, na sua humildade, não ser digno de desamarrar as sandálias. E na missão que Deus a ele confiou, partiu para anunciar, converter, batizar, ensinar, denunciar e assim inevitavelmente incomodar. Sempre esteve disposto a doar a sua vida em razão do homem a quem precedia, e ao chegar à última casa, no último espaço de tempo, findando toda a história da Lei e dos Profetas, morreu para que se iniciasse o Novo Testamento e com ele a vitória definitiva, a sentença irrevogável: o triunfo do Rei nos braços do sagrado madeiro.

João Batista é como esta peça do Xadrez. Nós também temos a missão de sermos como os peões: anun ciarmos o Cristo, denunciarmos o erro. Não buscar a primazia do eu próprio, mas o serviço do eu em função do outro. Estarmos sempre dispostos aos planos do Pai, na simplicidade de coração, na constante vigilância e fiel oração esperando, com o caminho aplainado, a sua aguardada e gloriosa vinda, chegando inclusive ao limite da vida, para que o único que vença através de um cheque-mate a derrotar o mal, e reine sempre, seja Cristo. E enfim, para tudo isso, temos ainda uma vantagem: já sabemos por onde começar e para onde ir. Para que o Rei cresça, e o peão diminua.

Edvaldo Betioli Filho

Curitiba, 29 de junho de 2010.

Solenidade de São Pedro e São Paulo

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domingo, 20 de junho de 2010

Ele fez a diferença

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O Defensor da Floresta

Desde pouca idade sempre aprendi que se nós temos direitos, por eles devemos prezar e fazê-los valer. Sejam eles quais forem, com a dimensão que tiverem. Recordo-me que diziam serem os direitos uma conquista de tempos de lutas, do suor de muitos, da dedicação de tantos outros e por isso além de buscá-los deveríamos defendê-los como um patrimônio valioso.

E sempre fiquei atento para encontrar alguém que se encaixasse neste perfil que me apresentavam. A procura não foi das mais simples, mas encontrei uma pessoa que deixou suas impressões em nossa história. Houve nos dias atuais um exemplo de garra e de defesa de seus direitos, um homem que marcou o solo brasileiro com seus passos determinados na caminhada em defesa da preservação de sua terra. Este homem que viveu pela causa da Amazônia e por ela morreu tornou-se defensor e ícone da Floresta.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu no coração da Floresta Amazônica, na pequena Xapuri, no Acre, em 15 de dezembro de 1944. Era filho de seringueiro, e com o pai, pelas incursões na mata, aprendeu o mesmo oficio, antes mesmo de aprender a ler e a escrever. Na maioria dos seringais não havia escolas, e os proprietários das grandes terras não tinham a mínima intenção de criá-las. Por isso, só foi alfabetizado aos 20 anos de idade.

Mas isso não se tornou um empecilho para aquele que viria a tornar-se um grande líder regional. Seu primeiro passo foi ingressar na vida sindical, e em 1975 tornou-se secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir daí participou ativamente das lutas dos seringueiros. Realizou os “empates”, as manifestações pacíficas onde os seringueiros protegiam as árvores do desmatamento com seus próprios corpos. Promovia também diversas ações em defesa da terra dos nativos contra a exploração indevida dos latifundiários.

Fundou em 1977 o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em sua cidade natal, e no mesmo ano foi eleito vereador pelo MDB à Câmara Municipal. É neste período que aquele homem, a quem foi negado os estudos para sempre ser submisso ao sistema, sofre as primeiras ameaças de morte. Era o defensor da floresta lutando por seus direitos e incomodando os grandes fazendeiros.
Em 1979 fez da Câmara Municipal um local de debates entre lideranças sindicais, populares e religiosas. Foi por isso acusado de subversão e submetido a duros e violentos interrogatórios, sendo torturado secretamente. Mas as consequências de suas lutas em prol de seu povo e de seus direitos não para por aí. Ainda na época da Ditadura Militar, em 1980, é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros do Acre.

No ano de 1985 liderou o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, foi quando a luta dos seringueiros começou a ganhar repercussão nacional e internacional. Tinha a proposta de unir os interesses dos índios e dos seringueiros em defesa da Floresta Amazônica. Propunha a criação de reservas extrativistas, onde seria preservada as áreas indígenas e de mata, e garantiria a reforma agrária para beneficiar os seringueiros. Ganhou maior projeção quando em 1987 membros do órgão do meio ambiente ligado à ONU visitaram a floresta e constataram a devastação da Amazônia e a expulsão dos seringueiros, feito pelos fazendeiros com dinheiro de projetos financiados por bancos internacionais. Compareceu no Congresso dos Estados Unidos e lá fez mais denúncias. E em um mês os programas de financiamento aos projetos de destruição da floresta foram suspensos.

Isto foi o estopim para que a perseguição direta a Chico Mendes aumentasse consideravelmente. Foi acusado pelos fazendeiros e políticos de prejudicar o progresso do Acre. As ameaças à sua vida aumentavam cada vez mais. Denunciou por várias vezes à polícia o que vinha acontecendo e, mais uma vez, não foi ouvido. Sua intensa luta pela preservação da Amazônia fez com que ele mesmo anunciasse que seria morto. Porém, as autoridades e a imprensa cerraram os seus ouvidos à voz daquele soldado verde.

No fim da tarde do dia 22 de dezembro de 1988 o sol já se fundia com as águas do barrento rio de Xapuri. O antigo seringueiro voltava para casa e visualizava aquele espetáculo da natureza com emoção. Era mais um dia que se encerrava, e caminhava rumo à família. Chegou em casa e, como um guerreiro após mais um dia de luta, tomou nos braços a filha Elenira e abraçou-a como se fosse a última vez. Para ele, essa era uma grande recompensa para tanto cansaço depois de mais um dia de trabalho. Cruzou a cozinha e saiu para se banhar do lado de fora. Bastaram dois passos, e o defensor da floresta veio ao chão, fulminado por dois tiros de escopeta.

Sua vida findara, mas sua luta jamais. Após sua morte, mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o “Comitê Chico Mendes”, exigindo providências quanto a punição deste crime. Em 1990 a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão.

Como Chico Mendes queria, várias reservas extrativistas foram criadas. A primeira surgiu em 1988. Em 2007, já existiam 35 reservas extrativistas – cooperativas para a caça e a pesca e a extração de seringa, castanha, cupuaçu, palmito, óleo de copaíba, madeira certificada, tudo de forma não-predatória.

A partir da morte de Chico Mendes, os empates para a criação de reservas foram diminuindo, até não se fazerem mais. Contudo, muitos sindicalistas ainda continuam defendo a Floresta e lutando por seus direitos e de seu povo, e assim ainda são vítimas por se perfilharem à causa de Chico Mendes. Todos na luta, buscando fazer a diferença, como defensores da Floresta.

Curitiba, 20 de junho de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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domingo, 6 de junho de 2010

Livros

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Quando Cristo fala

Atualmente, não é fácil encontrar um livro com temática religiosa de grande tiragem e número de vendas, que tenha sido escrito para os leitores em geral, que não gire em torno do tema da auto-ajuda. Na busca desenfreada pelo ter, os seres humanos se depararam com um abismo cavado sobre sua própria essência, e diante desta perca do ser, exigem para si, perante as visíveis consequências, palavras confortadoras e otimistas, fórmulas prontas conforme a força do pensamento.

Seja talvez por ter sido escrito em 1976, e influenciado por todo o contexto libertador do período pós Concílio Vaticano II, Meu Cristo Partido não corre o risco de ser taxado como um livro de auto-ajuda, nem de cair na mesmice das levas de obras que as muitas editoras nos oferecem hoje. Mas antes disso, é um livro de cunho religioso que leva o leitor a uma profunda reflexão, até mesmo dolorosa, se este se entregar verdadeiramente à leitura.

Quase beirando a um romance, Meu Cristo Partido é a grande obra do sacerdote espanhol Ramón Cué, que de forma simples e direta conseguiu criar uma narrativa envolvente, que prende o leitor na ficção escrita sem floreios ou voltas. Formado na rigidez dos seminários da Companhia de Jesus, o jesuíta Cué não deixa escapar essa influência nas linhas que escreve, sendo cuidadoso ao tratar do tema da necessidade de voltarmos os nossos olhos ao irmão que é desprezado e passível de todos os sofrimentos.

Dentro deste assunto o autor discorrerá todo o livro, contando a história como que em um programa de televisão, partindo do momento que ele, entre idas e vindas nos antiquários de Sevilha, encontra um Cristo muito bem talhado em madeira, mas totalmente partido e despedaçado, e por ele fica encantado, desprendendo assim uma grande quantia para levá-lo para casa.

Aí que começa toda a intimidade de Meu Cristo Partido. Seguindo por cada parte onde aquela escultura de Cristo sofreu um dano, desde a falta da cruz, passando pela ausência de sua mão direita e de seu pé até o rosto cortado, o leitor é imerso em uma doce espiritualidade, sobretudo quando se depara com o grande trunfo de Cué: as palavras que o Cristo partido troca com o sacerdote. Serão elas que farão com que brilhe sobre esta obra a capacidade de tocar os corações.

É muito provável que cada leitor consiga identificar-se com este pequeno livro, possível de ser lido em poucos dias, mesmo sendo ele escrito há mais de trinta anos. Isto porque ele não foi feito pensando no lucro de sua venda, nem com a vontade de ser mais uma obra sensacionalista, mas sim com a intenção de mostrar o Cristo que está no irmão que sofre, na realidade que mora ao lado e assim fazermos enxergar nossas próprias limitações. Estas limitações não serão completadas com fórmulas prontas, ou com pensamentos positivos, mas a verdadeira mudança acontecerá a partir do momento em que eu ouvir a voz do Cristo verdadeiro. Quebra-se a arrogância que existe em nosso interior para que a necessidade e simplicidade dos pequenos, através da voz de Cristo, fale mais alto.

Curitiba, 06 de junho de 2010
Edvaldo Betioli Filho
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