domingo, 14 de dezembro de 2008

Natal

Um comentário :
Qual é a lógica do sistema?
Um conto natalino

Saia fumaça pela chaminé enferrujada que jazia naquele telhado comum entre aquelas casas. A chaminé sim era algo incomum sendo da vizinhança a única. Havia caído em desuso, ainda mais quando a tecnologia tomava conta e se alastrava como uma peste incontrolável, que desta vez ao invés de quererem freá-la todos queriam e procuravam dissemina-la. Não entremos nas particularidades e conseqüências trazidas pela tecnologia. Isso talvez não nos compita neste momento, afinal, a família Silva e Silva tradicionalmente preparava sua ceia natalina no entardecer do dia 24 de dezembro. Ou parte dela.

Compreenda de princípio que nem todos os sistemas são perfeitos.

A família Silva e Silva era uma família que caracterizam hoje como família comum, embora não goste deste termo, usemo-lo para que a história desenrole-se normalmente. O pai, homem esforçado, preparava o tempero para a carne que esperava inerte dentro da gamela sem retirar a atenção da torta de maçã que estava sendo assada no forno. A torta, a mesma receita de sua mãe. A carne, o mesmo modo de preparo de sua avó. Tudo para ele possuía um significado especial e queria que este natal fosse o marco da mudança. Não poupou esforços. Buscava a felicidade. Pedira folga do trabalho especialmente para preparar o jantar para os filhos e esposa.

Compreenda agora que todo sistema tem um objetivo, talvez nós demoremos em encontrá-lo.

O filho mais velho não estava em casa. Era possível contar nos dedos de uma mão a quantidade de dias que ele jantava com a família. O pai exigia que nesta data ele estivesse presente, mas as exigências paternas já estavam sem nenhum poder. Culpavam a idade. Mas ela não era a real culpada. A culpa? A família, no âmago relacional, sabia de quem era a culpa e preferiam ocultar a se expor a um desgaste maior do que o já existente. A falta de diálogo familiar era o agente corrosivo que insistia em destruir o cabo que sustentava aquela família, forçadamente, unida.

A filho mais novo, ainda permanecia ao lado do pai. Pode-se culpar também a idade por isso, mas era benéfico tal fator. Era o apoio paterno, quando ele deveria se apoiar no pai neste período conturbado da passagem da infância para a adolescência.

A mãe, enfim, era o maior problema da família. Depois de anos trabalhando atrás de uma escrivaninha, sempre de cabeça baixa, decidiu largar tudo. E literalmente largou inclusive a família. Chegou certo dia dizendo que tinha um novo negócio, secreto e discreto, que traria muita renda e pouco suor. Sua vida familiar começou a declinar quando se perguntou qual era o sentido de tudo. Encontrou, algum tempo depois, o sentido em um pó branco.

O relógio que pendia na parede cravava nove horas da noite. Mesa arrumada com a melhor toalha, pratos alinhados com os melhores talheres que possuíam. O pai olhou tudo o que tinha preparado. Sentia-se impotente ao ver sua mesa vazia, não de alimento ou bens, mas de amor. Entretanto, abriu um sorriso quando viu entrar pela porta da cozinha o filho mais velho, cabelo penteado, roupas limpas, expressão filial. Sentaram-se os três na mesa. Esperariam ali mesmo a chegada da mãe. Não sabia em que momento surgiria de seus devaneios urbanos. Cada um de cabeça baixa. Não tinham ânimo nem ao menos de puxar uma conversa, estabelecer um diálogo. Mas o silêncio poderia ser interpretado: a que ponto chegara esta família, incrivelmente desfalecida em plena noite de Natal.

Compreenda agora, estimado leitor, que um sistema consiste de componentes, entidades, partes ou elementos, e que sem os quais o sistema pode gerar problemas.

Antes da revolta da mãe, a família celebrava a noite de Natal sempre da mesma forma. A mãe preparava a ceia, o pai chegava no mesmo horário de costume, sentavam-se à mesa, comiam e dormiam. E ponto. Nesta noite que antecedia o dia 25 de dezembro não havia diálogo, não havia cumplicidade, não havia união. Era tudo muito automático, e essa data, em destaque no calendário era uma data para um jantar com um cardápio diferente. O calendário exibia dia 25 de dezembro como Natal. Naquela família, 25 de dezembro era como os outros vinte e cincos, sem amor, não era Natal.

Compreenda agora que alguns sistemas possuem a propriedade de manter o meio interno estável, mesmo diante de mudanças no meio externo. Alguns possuem. Outros não.

O mesmo relógio já marcava dez horas quando ouviram a porta da frente abrir. Instintivamente, o pai levantou-se e permaneceu em pé ao ouvir aquela mulher entrando e gritando como uma louca. Viu a mãe entrar pela cozinha, com uma expressão mutilada. Não havia ferimentos externos, apenas olheiras e palidez, mas os ferimentos internos pulsavam. Ela gritava.

- Que gente careta. Reunidos para que? Chega de toda aquela farsa que sempre existiu, de sentarmos ao redor desta mesa e vivermos como se tudo estivesse bem, como uma família. Você, que se diz o pai, nunca soube me valorizar. E vocês, que se dizem filhos, são apenas sanguessugas – aumentou significativamente o tom de voz - Qual a lógica de tudo isso? Qual a lógica do sistema? Parem... – e o pai não suportando mais ouvir todo aquele mar de ofensas começou a falar, quase que gritando, para que ela se calasse e ouvisse.

- Primeiro você respeite este ambiente que um dia já foi familiar e que se ao menos você não se sente família, nós nos sentimos – e apontou para os filhos. E sempre há tempo de mudar, sempre há tempo de construir. Sempre há tempo de converter-se. Sempre há tempo de perdoar. Sempre há tempo de pedir perdão. Sempre há tempo de encontrar-se e conhecer-se. Sempre há tempo de estender a mão para doar, para pedir e para acalentar. Sempre há tempo para abrirmos os olhos e enxergarmos o que sempre nos foi oculto. Sempre há tempo para corrigirmos erros. Sempre há tempo para desobstruirmos caminhos. Sempre há tempo para edificarmos pontes. Sempre há tempo para levantarmos bandeiras. Sempre há tempo para viver. Sempre há tempo para amar. Sempre há tempo... – baixou os olhos, segurou as lágrimas, ergueu a cabeça e olhou fixamente nos olhos da mulher – sempre há tempo de celebrarmos o verdadeiro Natal. Sempre há tempos de sermos família! Sempre há tempo...

Estava agora realmente abalado, mas aliviado. Desabafara. Sentou-se novamente e esperou que apenas sua mensagem tocasse o coração, a alma da esposa.

Os filhos estavam como em estado de choque ao acompanharem toda aquela discussão. Não tinham coragem de, novamente, levantarem a cabeça. A mãe, atônita, petrificada, paralisada, estava como alguém que acabara de levar uma surra. Sentou-se na única cadeira vaga da mesa. Pendeu a cabeça sobre as mãos e chorou. Chorou como uma criança. Soluçou. E como se uma luz a iluminasse, como se uma força a impelisse, colocou a mão por sobre o ombro do filho mais velho que estava à sua esquerda e do filho mais novo que estava à sua direita, levantou os olhos, janela da alma, olhou para o marido e disse:

- Sempre há tempo para pensar que a lógica do sistema dever ser amar!

Compreenda, para finalizar, caro leitor que a boa integração dos elementos de um sistema é chamada sinergia, determinando que as transformações ocorridas em uma das partes influenciarão todas as outras.

FIM

Nós somos simples sistemas. Mas que exista em nós a sinergia – efeito do esforço de vários subsistemas na realização de uma tarefa complexa - significando que muito nos esforçamos para amar! E amamos, fazendo do nosso um verdadeiro Natal, uma verdadeira vida. Feliz Natal!

Edvaldo Betioli Filho

Dado em Palmeira, no dia 14 de Dezembro, Terceiro Domingo do Advento, dia de São João da Cruz, Ano do Senhor 2008, dia de minha décima oitava natividade.

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Diálogos Compartilhados

Nenhum comentário :
Estimados leitores do 'Diálogo Vivo', o artigo que segue foi-nos compartilhado pelo colega José Macedo, de Portugal, para especial publicação neste blog! Vale a pena ler!!


Natal, um tempo de esperança

Aproxima-se a época de Natal, cuja cultura é de uma beleza e de uma ternura que não tem paralelo no calendario social do ano. É certo que a vida pessoal e social é feita de muitas facetas, de tantas que nem lhe sabemos a conta e todas elas importantes. mas nehuma é tão intima e tão bela como a ternura da época do Natal. Para além da beleza dessa ternura e dessa intimidade, que tornam o Natal humanamente irresistivel ao coração humano. Há ainda um outro aspecto muito importante que faz parte dessa cultura de Natal, a esperança, que nos faz sair para alem dos horizontes de nós mesmos. O Natal é também um tempo de esperança que nos torna mais otimistas.

Não sei esta esperança existencial é apenas fruto da inculturação religiosa ou se um traço comum e estruturante de todas as culturas, como diria Levi-Straus. É verdade que a influência religiosa é muito determinante na cultura. Deva-se (e da-se, penso eu) muita importância ao significado cultural da esperança messianica no tempo que precedia o Natal, o tempo do Advento. Durante séculos o povo Hebreu suspirava pela vinda de um messias que o viesse libertar das suas humilhações. Com imagens poéticas muitos sugestivas, a esperança da vinda do messias era comparada à sede de orvalho que a terra árida (como a deles, na Palestina) tinha.

É literalmente bonita a imagem poetica das manhãs de primavera com as folhas das plantas rasteiras cheias de pequenas gotas de orvalho ao luzir do sol doirado que nasce e que à medida que o calor do sol aumenta, vão desaparecendo para se transformarem em seiva resfrescante dessas mesmas plantas. É conhecida também, como um postal ilustrado de beleza, a imagem poetica das rosas com gotas de orvalho, simbolizando as lágrimas de amor ou os desejos de amor. Quer dizer que não era só o coração humano
que suspirava pela vinda do messias, mas toda a criação, no dizer do épico de Teilhard de Chardin, suspirava pela benção de um orvalho que a revitalizasse. Do desejo pessoal e colectivo de um messias, passa-se a um desejo cósmico: o desejo de uma nova humanidade e de uma nova terra. O desejo de uma felicidade que não se sabe definir, porque não cabe em nenhuma definição.

O que sabemos desta esperança existencial é que ela é patente, ela vive-se e sente-se por altura do Natal por crentes e não crentes, ainda que de formas e representações diversas e apesar da actual perda de praticas religiosas e mesma da perda de sentido de vida. Trata-se de um sentimento forte que continua vivo nos corações, nas cidades ou nas aldeias, pessoalmente e socialmente e mesmo sob formas que se poderiam dizer laicas, alheias a qualquer expressão tradicional de religiosidade.
Sabemos tambem que a esperança se funda sempre num desejo de coração, na aspiração de algo que conhecemos ou intuimos, ainda que vagamente, na aspiração de um bem que sentimos real e necessario na nossa vida, funda-se sempre numa certeza. A esperança, pressupõe uma certeza, pressupõe a Fé. E a Fé uma uma forma de conhecimento que gera certeza. Não é uma forma lógico-dedutiva de conhecimento como a que usamos na ciência, mas é uma forma diferente de conhecimento pessoal que gera certeza.
Não ha esperança de felicidade sem acreditar que essa felicidade existe.
E existe, onde? Existe, como?
Só pelos nosso meios de conhecimento não o podemos saber, porque um dos seus polos nos transcede. O que sabemos é que existe. E que está, ao mesmo tempo, em nós e para além de nós, como se os seus dois polos fossem os dois pés onde assenta o arco-iris transcendente. O nosso coração é um dos pés de apoio desse arco-iris; o outro está para alem de nós, transcende-nos. Mas, sabemos que existe. Se não existisse, então a nossa esperança não fazia sentido, seria uma alienação. E isso não pode ter acontecido a toda humanidade.

É esta esperança e esta certeza de um amanhã melhor que nos torna tambem mais confiantes e otimistas. O tempo de Natal é tambem um tempo de otimismo.
A esperança é tão reconfortante, tão poderosa, tão motivadora, tão alta que passa por cima dos muros das nossas dificuldades e reaparece sempre mais adiante, como a estrela polar que deixamos de ver numa curva do caminho e depois reaparece, tal como se descrevia nos bonitos contos de Raul Brandão.

A esperança, diz-se, é a ultima a morrer, se é que ela morre.Porque eu acho que ela não morre. Se morresse, que seria o homem sem esperança?
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Literatura

2 comentários :
Nós percebemos quem são aqueles que cruzam Nossos Caminhos?

Em tempos passados, uma desafortunada mulher da à luz filhos gêmeos. Cada um, a partir daquele momento, foi obrigado a trilhar caminhos diferentes, rumo a futuros totalmente distintos.
Porém um dia, entre atos e fatos, sangue e álcool, vida e morte, eles terão um encontro. E esse encontro mudará a vida dos dois. Um dia eles foram separados. Seria agora o encontro para a fraterna união?

Uma mulher heróica, sem piedade e infeliz.
Um homem exemplar, com a família dos sonhos.

Duas histórias, duas vidas. Diversas diferenças. Incontáveis semelhanças.
Principalmente aquelas pessoas especiais que sempre estão em nossos caminhos.

Não perca essa história intrigante onde você poderá reconhecer na sua vida o que sempre passou oculto perante seus olhos.
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