Natal

Qual é a lógica do sistema?
Um conto natalino

Saia fumaça pela chaminé enferrujada que jazia naquele telhado comum entre aquelas casas. A chaminé sim era algo incomum sendo da vizinhança a única. Havia caído em desuso, ainda mais quando a tecnologia tomava conta e se alastrava como uma peste incontrolável, que desta vez ao invés de quererem freá-la todos queriam e procuravam dissemina-la. Não entremos nas particularidades e conseqüências trazidas pela tecnologia. Isso talvez não nos compita neste momento, afinal, a família Silva e Silva tradicionalmente preparava sua ceia natalina no entardecer do dia 24 de dezembro. Ou parte dela.

Compreenda de princípio que nem todos os sistemas são perfeitos.

A família Silva e Silva era uma família que caracterizam hoje como família comum, embora não goste deste termo, usemo-lo para que a história desenrole-se normalmente. O pai, homem esforçado, preparava o tempero para a carne que esperava inerte dentro da gamela sem retirar a atenção da torta de maçã que estava sendo assada no forno. A torta, a mesma receita de sua mãe. A carne, o mesmo modo de preparo de sua avó. Tudo para ele possuía um significado especial e queria que este natal fosse o marco da mudança. Não poupou esforços. Buscava a felicidade. Pedira folga do trabalho especialmente para preparar o jantar para os filhos e esposa.

Compreenda agora que todo sistema tem um objetivo, talvez nós demoremos em encontrá-lo.

O filho mais velho não estava em casa. Era possível contar nos dedos de uma mão a quantidade de dias que ele jantava com a família. O pai exigia que nesta data ele estivesse presente, mas as exigências paternas já estavam sem nenhum poder. Culpavam a idade. Mas ela não era a real culpada. A culpa? A família, no âmago relacional, sabia de quem era a culpa e preferiam ocultar a se expor a um desgaste maior do que o já existente. A falta de diálogo familiar era o agente corrosivo que insistia em destruir o cabo que sustentava aquela família, forçadamente, unida.

A filho mais novo, ainda permanecia ao lado do pai. Pode-se culpar também a idade por isso, mas era benéfico tal fator. Era o apoio paterno, quando ele deveria se apoiar no pai neste período conturbado da passagem da infância para a adolescência.

A mãe, enfim, era o maior problema da família. Depois de anos trabalhando atrás de uma escrivaninha, sempre de cabeça baixa, decidiu largar tudo. E literalmente largou inclusive a família. Chegou certo dia dizendo que tinha um novo negócio, secreto e discreto, que traria muita renda e pouco suor. Sua vida familiar começou a declinar quando se perguntou qual era o sentido de tudo. Encontrou, algum tempo depois, o sentido em um pó branco.

O relógio que pendia na parede cravava nove horas da noite. Mesa arrumada com a melhor toalha, pratos alinhados com os melhores talheres que possuíam. O pai olhou tudo o que tinha preparado. Sentia-se impotente ao ver sua mesa vazia, não de alimento ou bens, mas de amor. Entretanto, abriu um sorriso quando viu entrar pela porta da cozinha o filho mais velho, cabelo penteado, roupas limpas, expressão filial. Sentaram-se os três na mesa. Esperariam ali mesmo a chegada da mãe. Não sabia em que momento surgiria de seus devaneios urbanos. Cada um de cabeça baixa. Não tinham ânimo nem ao menos de puxar uma conversa, estabelecer um diálogo. Mas o silêncio poderia ser interpretado: a que ponto chegara esta família, incrivelmente desfalecida em plena noite de Natal.

Compreenda agora, estimado leitor, que um sistema consiste de componentes, entidades, partes ou elementos, e que sem os quais o sistema pode gerar problemas.

Antes da revolta da mãe, a família celebrava a noite de Natal sempre da mesma forma. A mãe preparava a ceia, o pai chegava no mesmo horário de costume, sentavam-se à mesa, comiam e dormiam. E ponto. Nesta noite que antecedia o dia 25 de dezembro não havia diálogo, não havia cumplicidade, não havia união. Era tudo muito automático, e essa data, em destaque no calendário era uma data para um jantar com um cardápio diferente. O calendário exibia dia 25 de dezembro como Natal. Naquela família, 25 de dezembro era como os outros vinte e cincos, sem amor, não era Natal.

Compreenda agora que alguns sistemas possuem a propriedade de manter o meio interno estável, mesmo diante de mudanças no meio externo. Alguns possuem. Outros não.

O mesmo relógio já marcava dez horas quando ouviram a porta da frente abrir. Instintivamente, o pai levantou-se e permaneceu em pé ao ouvir aquela mulher entrando e gritando como uma louca. Viu a mãe entrar pela cozinha, com uma expressão mutilada. Não havia ferimentos externos, apenas olheiras e palidez, mas os ferimentos internos pulsavam. Ela gritava.

- Que gente careta. Reunidos para que? Chega de toda aquela farsa que sempre existiu, de sentarmos ao redor desta mesa e vivermos como se tudo estivesse bem, como uma família. Você, que se diz o pai, nunca soube me valorizar. E vocês, que se dizem filhos, são apenas sanguessugas – aumentou significativamente o tom de voz - Qual a lógica de tudo isso? Qual a lógica do sistema? Parem... – e o pai não suportando mais ouvir todo aquele mar de ofensas começou a falar, quase que gritando, para que ela se calasse e ouvisse.

- Primeiro você respeite este ambiente que um dia já foi familiar e que se ao menos você não se sente família, nós nos sentimos – e apontou para os filhos. E sempre há tempo de mudar, sempre há tempo de construir. Sempre há tempo de converter-se. Sempre há tempo de perdoar. Sempre há tempo de pedir perdão. Sempre há tempo de encontrar-se e conhecer-se. Sempre há tempo de estender a mão para doar, para pedir e para acalentar. Sempre há tempo para abrirmos os olhos e enxergarmos o que sempre nos foi oculto. Sempre há tempo para corrigirmos erros. Sempre há tempo para desobstruirmos caminhos. Sempre há tempo para edificarmos pontes. Sempre há tempo para levantarmos bandeiras. Sempre há tempo para viver. Sempre há tempo para amar. Sempre há tempo... – baixou os olhos, segurou as lágrimas, ergueu a cabeça e olhou fixamente nos olhos da mulher – sempre há tempo de celebrarmos o verdadeiro Natal. Sempre há tempos de sermos família! Sempre há tempo...

Estava agora realmente abalado, mas aliviado. Desabafara. Sentou-se novamente e esperou que apenas sua mensagem tocasse o coração, a alma da esposa.

Os filhos estavam como em estado de choque ao acompanharem toda aquela discussão. Não tinham coragem de, novamente, levantarem a cabeça. A mãe, atônita, petrificada, paralisada, estava como alguém que acabara de levar uma surra. Sentou-se na única cadeira vaga da mesa. Pendeu a cabeça sobre as mãos e chorou. Chorou como uma criança. Soluçou. E como se uma luz a iluminasse, como se uma força a impelisse, colocou a mão por sobre o ombro do filho mais velho que estava à sua esquerda e do filho mais novo que estava à sua direita, levantou os olhos, janela da alma, olhou para o marido e disse:

- Sempre há tempo para pensar que a lógica do sistema dever ser amar!

Compreenda, para finalizar, caro leitor que a boa integração dos elementos de um sistema é chamada sinergia, determinando que as transformações ocorridas em uma das partes influenciarão todas as outras.

FIM

Nós somos simples sistemas. Mas que exista em nós a sinergia – efeito do esforço de vários subsistemas na realização de uma tarefa complexa - significando que muito nos esforçamos para amar! E amamos, fazendo do nosso um verdadeiro Natal, uma verdadeira vida. Feliz Natal!

Edvaldo Betioli Filho

Dado em Palmeira, no dia 14 de Dezembro, Terceiro Domingo do Advento, dia de São João da Cruz, Ano do Senhor 2008, dia de minha décima oitava natividade.

Comentários

Diego Schaun disse…
olha.. sei que está atrasado... é que não pude acessar a net domingo! Parabéns betiolinho... Que Deus te ilumine sempre... pois vc precisará de luz... Vc é uma pessoa "fenomenal"... apesar de... (...) ...

Bem... gostei do texto e continue sempre escrevendo... pois quem escreve não deve e quem não deve não paga, e quem não paga é porque não comprou e quem não compra é porque não quis, e se nõ quis é problema dele(a)... entendeu? Não? Nem eu... "oxe" parece que baixou um espírito doido aqui...

Pois é... continue escrevendo porque, como diria o grabde catedrário "Diego Schaun" ...(1 minuto de silêncio) ... "A vida é a vida e a morte é a morte"

Mas concluíndo esta mísera epístola, o corinthians vai mesmo melhorar com o "OBÊSO" do ronaldo? hum... só quero é ver..., pois desse assunto de "gorduras, colesterol, vc entende né? ops... desculpe... não leve a mal... porque vc sabe a diferença entre "dano" e "ofensa" ... sabe ou não sabe? Não sabe...? eu sabeia que vc não sabia... como eu sei (aprendi no livro que to lendo agora "por sinal muito bom" - Pergunte a Platão)... dano é quando alguém dá um murro em sua barriga, mas vc continua gordo (claro)... entendeu? mas, se alguém olha para vc e diz, Edvaldo, como vc está gordinho (esse é ridículo), aí é uma ofensa, porque a sua barriga continuará nas "grandes" proporções normais, não é? pois é... mas essa marca, essa indiferença, essa ferida fica em sua alma... vc vai dormir(provavelmente depois de um copo de leite, de ter visto algumas fotos de cardeais, e contar uns 27 carneirinhos) e ouvirá vozes..."como vc está gordinho" , vc... gordinho.... edvaldo... gordinho... está vc... heheh

realmente vc precisa trabalhar isto... não pode deixar as pessoas falarem assim de vc....

por isso eu gosto do Bob marley e do Barack obama...

aliás... vc ja assistiu aquele filme " Eu sou a lenda" ? nossa... é muito bom... vi ontem... assista e mude de vida... fassa como eu... tome Coca-cola e seja feliz...

Abração... curta bem seus 18 anos, pois ano que vem vc vai fazer 19 e depois sabe o que vai acontecer?? vc vai fazer 20 anos... legal a vida né??
pois bem.... vc tem a honra de fazer aniversáio no mesmo dia do meu avô MARIVALDO SCHAUN, o schaun dos scahun's ...


abração... vou parar porque ja escrevi demais... obrigado pela paciência... precisando, é só falar com seus pais... eles são seus responsáveis...

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