domingo, 14 de setembro de 2008

Um sete como outros setes...

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Verde e amarelo – Um futuro pela frente


O que seria - segundo os parâmetros de uma sociedade marcada por convenções - mais aceitável neste momento em que passadas as comemorações da Semana da Pátria era escrever algo inflamado de patriotismo. Nada mais cabível que dissertar sobre o orgulho de ser brasileiro, ou então, exaltar as belezas naturais de nossa terra. Mas todo esse repertório seria muito repetitivo, uma vez que considerável número de notáveis já o fez, por exemplo, o maranhense Gonçalves Dias (não que eu queira igualar-me com os grandes) e Bilac com sua rigidez literária também o realizou. E tantos outros seguiram a mesma trilha. Não que estejam errados – como não estavam - mas é necessário mudarmos de personagens e até mesmo, se nossa ousadia for tal, permutarmos os cenários.

Lembram-se da épica narrativa da Independência (como não esquecer)? Dom Pedro, em seu esbelto eqüino branco, junto com companheiros sedentos por liberdade, grita, brada com a nobre espada apontando ao céu a imposição: ‘Independência ou Morte.'

Segundo a história, marcada nos livros e na vida política e social a partir daquele momento, tivemos a independência. E nós sabemos que todo o eufemismo empregado na bela cena da Independência esconde fatores muito piores. A partir da simulada deserção de Portugal, tivemos dilacerantes prejuízos, evidenciados na grande dívida contraída e na disfarçada dependência de outras nações.

A história evoluiu. Ou pelo menos foi isso que pareceu acontecer, porque muita coisa ainda parece estar como era antes. E todo aquele verde-amarelismo, como tudo indica, está de volta.
Em 1822 o Império (ou ao menos uma parte dele) estava alvoroçado com aquela novidade da dita não dependência. Anos mais tarde, em 1954 outra figura de nossa história mexeu com o orgulho dos brasileiros. O gaúcho Vargas criara a Petrobras, nadando na aprovação de um povo embevecido com as realizações de um governo tipicamente populista. Gritavam agora ‘O Petróleo é nosso’ mas no fundo, para muitos, repetia-se o grito de independência dado por Pedro I. Era o momento para termos o nosso próprio petróleo, já bem cotado no mercado externo, o ouro negro que poderia vir a substituir o ouro verde, desvalorizado depois da crise de 1929. Estava nas oleadas mãos de Getulio o futuro da nação: saber conduzir o Brasil rumo ao futuro sustentável. Explodia o verde-amarelismo, o orgulho de ser brasileiro.

Mais de 50 anos depois outro personagem da História entra no quadro da exaltação nacional. Operário sindicalista que não esconde suas origens (e nem teria porque escondê-las) é agora o novo responsável pela onda populista que há algum tempo é encontrado na praia Brasil, praia, aliás, que contém reservas petrolíferas jamais detectadas em território nacional. E como setembro é o culpado por ressuscitar o mito do Brasil Grande, explode novamente o verde-amarelismo, e com ele seus vícios e suas virtudes, muito semelhantes aos tempos de Pedro e Getúlio, tantas e tamanhas, que a nação brasileira parece nadar do pseudo bem-estar nacional.
Não é de se estranhar que tudo isso esteja acontecendo. Primeiro aqueles que acompanham o dia-a-dia dos três poderes percebem que algo está fora do lugar. As relações institucionais estão abaladas, tanto que surgiram acusações de estarmos vivendo sob um Estado Totalitário, em um Estado policialesco, em que tolhe adversários. Mera coincidência com tempos remotos? Não. Eis aí uma característica populista, onde forças se reencontram em uma superfície, mas sempre estiveram fossilizadas juntas, abaixo da camada do pré-sal da classe política. Trocando em miúdos, há muito mais coisas, pessoas e interesses por trás dessa crise institucional e o que poderia ser mais trágico, muito mais podridão atrás de toda essa especulação sobre as descobertas petrolíferas na camada pré-sal.

Eis aí um segundo aspecto do Brasil Grande e do populismo tradicional. A propaganda para engrandecer sem sair do lugar. A marqueteira operação do início da retirada do petróleo abaixo da camada de pré-sal faz com que, assim como na década de 50, bradássemos novamente: O petróleo é nosso. Mas ainda não é. Há um longo processo pela frente, talvez a chance de ver um Brasil crescendo com o dinheiro do óleo, fazer acontecer o sonhado por todos. E nessas horas vale até recorrer à fé, como disse o mandatário da república, que Deus continue habitando nosso país, para que a sorte esteja do nosso lado e não seja preciso, como disse o ministro Mangabeira Unger, “reforçar nossa tropa naval para dissuadir eventuais ameaças às riquezas petrolíferas brasileiras”.

No dia 7 de setembro de 1822, o filho de D. João VI proclama a independência brasileira, montado em seu esbelto cavalo. Em 1954 o filho dos pampas proclama o início da independência petrolífera brasileira. E em 2008, o filho do sertão proclama o clímax de um Brasil que produz. Mas vale a pena lembrar o que a realidade os reservou: que o primeiro acabou esquecido em Portugal e toda sua atuação não acabou trazendo os benefícios que efetivamente poderiam ter qualificado o país. O segundo, foi morto pelo totalitarismo que ele mesmo construíra, usando as mãos apontadas para o peito para dar fim a uma crise que colocara todas suas construções por terra; ele fez, mas talvez não da melhor forma possível. E agora Lula, surfando na alta popularidade, agraciado pela boa avaliação dos ricos e pobres, analfabetos e letrados tem o ouro em suas mãos (haja visto os altos índices do PIB) para proclamar de uma vez por todas a real independência brasileira.

Hoje, perguntando para muitos, D. Pedro I, com o famoso quadro da Proclamação da Independência estampando o Museu de mesmo nome em São Paulo, de nossa história é um herói. Getúlio Vargas, com a famosa carta testamento onde afirmava sair da vida para entrar na história, tornou, de seu povo órfão, um herói. E Luiz Inácio Lula da Silva, neste sete de setembro é saudado como herói. Espero somente (e também desejo) que este heroísmo seja deveras um ato de coragem, racionalidade, responsabilidade e prudência, para que ao invés de quadro ou de carta testamento Lula deixe muito mais que uma boa impressão daqui 50 ou 100 anos, mas que ele deixe, nos futuros setes de setembro, a real independência brasileira, onde teremos enfim, o verdadeiro orgulho de sermos filhos desta nação. Aí sim, escreverei para exaltar meu país. O que estarão em minha memória serão os erros, para que estes não cometamos mais, e as lutas, para que com estas aprendamos o quão sofrido foi chegar até onde chegamos. Aí sim escreverei inflamado de patriotismo, transbordando de verde-amarelismo, tentando bradar mais alto que os grandes escritores, o meu orgulho de ser brasileiro.

Mas enquanto isso não acontece, somente cabe a este pobre postulante rezar para que Deus aqui continue habitando sem necessidade de tropas navais, e, sendo cidadão, trabalhar para que este Brasil, país de todos, alcance verdadeiramente a independência.

Dado em Londrina (PR),
dia sete de setembro de 2008,
no 186° aniversário da Proclamação da Independência.
Edvaldo Betioli Filho
Postulante Palotino
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