domingo, 9 de agosto de 2009

Ao mestre, com carinho.



Meu pai não só marca minha vida por sua presença ou seu título de 'Pai', mas por aquilo que ele me ensinou e ensina, e tenho certeza, ensinará.
Neste segundo domingo de agosto ofereço a ele este conto, mais um produzido nesta mente por ele gerada.

" A honra dos filhos são os pais" (Pr 17, 6)

Feliz dia dos Pais!!



Abril de 84



Meu pai não entendia, ou melhor, não queria entender.
- Pai, é a democracia, devemos lutar! Temos de dar um basta a este regime! Eu quero ir neste comício!
- Você não sabe o que está dizendo, nem ao menos o que está se passando!
Eu sabia o que estava dizendo, ou melhor, pensava que sabia.
Tinha crescido com todo aquele burburinho. Burburinho não, pois a Ditadura Militar tinha deixado grandes gritos presos em muitas gargantas, e esses gritos precisavam ser postos pra fora. Poderia esse ser o momento, quando a repressão já estava bem mais branda e o regime estava a um passo de seu fim.

Mas não era bem isso que eu estava imaginando quando discuti com meu pai naquela tarde.

Contudo, eu era apenas um rapaz, dos seus dezenove anos, cabelos compridos e mal ajeitados, barba crescida e repleta de falhas, um desocupado que ainda tentava entrar em alguma faculdade, um irresponsável de idéias vulneráveis, querendo ser mais um radical com os ideais revolucionários de certo Che, que, todavia não conseguia nem ao menos responder às suas próprias necessidades. Dependia totalmente de meu pai, eu tinha consciência disso, mas não queria esse fato aceitar. E ele, nesse dia, não queria que eu saísse de casa.

Para mim, meu pai não era grande entusiasta do regime militar, mas no fundo pensava que ele tinha alguma queda pela rigidez, pela formalidade e de certa forma pela segurança, que passavam à população que a eles eram fiéis, tanto em relação às ameaças bélicas, quanto aos comunistas.

Mas naquele dia eu estava empolgado, mais do que o normal. Na certa a adrenalina estava em níveis altíssimos em meu sangue e minhas veias pulsavam. Tanto pulsavam que desobedeci meu pai. Todos os meus amigos iriam, porque eu ficaria fora? Não escutei sua voz, que para mim naquela hora soava autoritária demais e lancei-me às ruas, junto de mais alguns como eu, tendo como único objetivo abrir a boca para gritar palavras de ordem contra tudo e contra todos, mesmo sendo palavras toscas e inúteis.

Andávamos em bando rumo ao grande comício que começaria daqui a poucas horas e que comemoraria o resultado de alguma votação no Congresso. E isso era tudo o que eu sabia. Caminhávamos como arruaceiros bêbados de qualquer coisa que nos deixava mais agitados. Mas um fato roubou nossa atenção, ou ao menos a minha.

Na avenida pela qual tomávamos caminho havia uma banca de jornal, lotada por uma grande aglomeração. Como grão-curioso que era, meti-me no meio daquela gente que fitava uma só coisa: a televisão. Percebi que as expressões daquele povo eram de um alguém derrotado. Sem entender muita coisa, perdido na minha ignorância, voltei também meus olhos àquela tela quatorze polegadas e tentei compreender o que se passava.
Ainda assim, só consegui notar que aquilo estava relacionado com nossa manifestação, enquanto a repórter, direto de Brasília, anunciava de dentro de seu terninho, naquela voz mecânica de senhora do microfone:
- A Emenda Constitucional apresentada pelo Deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, que permitiria as eleições diretas para Presidente da República foi rejeitada pela Câmara dos Deputados. Ela recebeu 298 dos 320 votos necessários. Mais uma derrota para a democracia. Líderes sindicais e estudantis confirmaram os comícios desta tarde que acontecerão em todo o Brasil. Agora, o tom é de protesto.

Lembro que muitos vaiaram. Tantos outros xingaram meia dúzia de palavras e saíram dali como chegaram. Meus comparsas já se preparavam para continuar a caminhada. E eu, também iria surfar nesta onda. Já estava saindo quando passei os olhos pelas manchetes dos principais jornais expostos ali nas portas daquela banca. Entre política, esporte e economia li pequeno título no canto direito da diagramação: “Pai Desconhecido”.

Não que eu fosse leitor assíduo de jornal impresso, mas aquilo me chamou a atenção, sem saber por que.

E inclinei-me um pouco para ler o pequeno texto que acompanhava o título da matéria. Meus colegas já chamavam minha atenção para prosseguirmos, mas mesmo assim continuei ali, lendo aquelas linhas que diziam mais ou menos isso: “A cada ano no Brasil nascem cerca de 500 mil crianças de ‘pai desconhecido’. Quase 30% de brasileiros que não possuem reconhecimento, tanto o legal, quanto o amoroso, e nem sequer sabem o nome do pai, nunca viram uma foto sua e nem tem certeza se está vivo”.

Não que eu fosse sensível aos problemas da sociedade, mas aquilo chamou ainda mais minha atenção. E mais uma vez sem saber por que.
Não tinha mais tempo para ler. E se tivesse, deveria comprar o jornal para contemplar a matéria na íntegra. Mas não era hoje que eu iria gastar meu dinheiro comprando meia dúzia de folhas impressas no preto e branco. E assim prosseguimos rumo ao centro dos protestos por aquela dita derrota. Mais agitados. Mais primitivos. Mais bêbados.

Quando já estávamos perto, sendo possível ouvir toda uma agitação, vem ao nosso encontro um outro grupo, um outro bando de devolutos, avisando o cabeça da turma que era preciso levar alguns pedaços de madeira, barras de ferro, ou o que achássemos no caminho para servir de arma, pois a polícia estava lá para repreender todo e qualquer protesto, e que se viessem pra cima, segundo ele, nós revidaríamos. Está bem. Nós revidaríamos, concordei.

E eu, mais uma vez, não querendo lembrar da imagem do meu pai que tanto me atentara para o que poderia acontecer, tomei nas mãos o primeiro objeto que me deram e parti para a luta. Eu era mais um a ir com os outros. Sem lenço nem documento, e principalmente, sem personalidade.
De fato, a polícia estava presente, com escudos e cães, com cavalos e porretes, para tentar garantir a ordem no centro de uma das maiores cidades do país. Estavam conseguindo até que um grande grupo de jovens chegou segundos após nós termos posto os pés ali e mais agitados que quaisquer outros, gritavam: Pra cima deles!.

E nós fomos. Sim, eu também fui, ora, todo o nosso grupo foi, porque eu não iria? Não podia perder a oportunidade de lutar. Mas foi mais que uma luta. Tornou-se uma batalha cruenta.

A partir daí lembro-me de poucas coisas: nossa correria, atirando o que tínhamos em mãos. Nossa pancadaria em meio a uma gigantesca aglomeração. Nossa ofensiva e a defensiva deles, que tentava acabar com nossa petulância. Vi paus, vi pedras, vi o fim do caminho. Vi uma bomba de gás lacrimogêneo arremessada parar do meu lado. Vi um policial vir em minha direção e vi-o erguer o braço. E nada mais. Pois ele desferiu-me um golpe na nuca, e aí apaguei legal. Tudo escureceu.

Só acordei e voltei a ver as cores e o clarão da vida em um branco e frio quarto de hospital. Nenhum daqueles que comigo estavam naquela confusão se fazia presente ali. A primeira pessoa que vi ao abrir os olhos não foi um baderneiro, nem um bêbado, nem ao menos um violento revolucionário. Não eram aqueles viciados em um trago, nem aqueles que me chamavam para causar confusão sem princípios conscientes. Logo depois que abri os olhos, a primeira pessoa que pousou ante minhas retinas foi meu pai. Foi aquele que sabia que tudo isso aconteceria.
Minha cabeça doía. Contudo, o que mais me incomodava era o arrependimento que sentia por não ter obedecido aquele homem que queria o meu bem, somente meu bem.

Mesmo com hematomas estampados por todo o meu corpo, ao ver aquele homem que me dera a vida e o nome – e muito mais que isso – lembrei-me da poucas linhas que li em algum jornal naquela abafada banca antes deste derradeiro episódio.

E mesmo que minha cabeça latejasse, eu consegui compreender a importância de meu pai. Pude tomar consciência de que ideologias são meras idéias desvalidas quando não existe o amor. Este, por sua vez, pode passar muito bem, obrigado, sem influências ideológicas. O amor existe por si só. Os ímpetos revolucionários são chamas que se apagarão quando o amor deixar de cumprir sua missão de combustível das boas obras. Naquele lugar de odor característico, cheirando a remédio, compreendi que o amor, aquele que nunca passará, vale mais que tudo. E tudo isso o que aconteceu me fez rever meus conceitos.

Percebi que meu pai não era tão admirador dos militares, nem ao menos se sentia atraído pela sua forma de governar. Enxerguei que meu progenitor não queria que eu saísse naquele dia não porque ele fosse de direita e eu um influenciado pelo barbado líder sindicalista, mas porque ele prezava minha vida. Porque ele me amava.

Eu sei que meu pai entendia, e melhor, queria que eu entendesse. Mas eu não compreendia que eu estava errado e para que isso acontecesse foi preciso uma certa tragédia se dar. E, felizmente ou infelizmente, como queiram, sempre será assim. Muitos filhos, como no meu caso, tardarão em ver o amor de seus pais, não porque ele inexista, mas porque nós ainda seremos simplesmente filhos até que tenhamos que transmitir tudo isso às nossas próprias crias.

A matéria dos ‘filhos sem pai’ ecoava ainda em meus pensamentos naquele alvíssimo leito, em abril de 84. Meu pai me amava. Eu o amava. Enfi percebia que aos pais competia o exercício da autoridade e a realização do amor. Como eu era privilegiado por ter esse bem. E só pude dizer, envolto nestas circunstâncias, apenas quatro palavras, tão comuns mas tão verdadeiras, que transbordavam de meu coração: Pai, eu te amo.



“Em atos e palavras respeita teu pai a fim de que venha sobre ti sua bênção (Eclo 3, 8)”.
Dado em Cornélio Procópio (PR), dia nove de agosto, segundo domingo do mês (Dia dos Pais), do ano do Senhor de dois mil e nove. 212° dia de nosso noviciado.



Edvaldo Betioli Filho
Noviço da Sociedade do Apostolado Católico




Share this article :

2 comentários :

Bárbara D'oro disse...

Acredito que para ser pai deve haver vocação,pois ser pai é de toda certeza um dos maiores desafios de um homem. O pai não apenas ama seu filho, como participa dela, dá o seu melhor. Por vezes não concordamos com o gênio ou com as opiniões do pai, por muitas vezes ignoramos e não procuramos entender. Mesmo com opiniãos diversas e nossa própria cadeia de pensamentos e posições que muitas vezes debatem com as de nossos pais sabemos que o que eles querem é o nosso melhor. Jesus seguiu todos os ensinamentos de Deus-Pai, foi o maior sábio da humanidade e o maior exemplo de amor. Deus, o grande Pai, mostra como verdadeiramente ensinar e Jesus como aprender e espalhar conhecimento. Como sabemos, ninguém é como Jesus, ninguém é perfeito, mas podemos melhorar através dos ensinamentos entre as relações filho e pai, Jesus e Deus. É dessa relação que falava Jesus, quando declarou: "O meu ensinamento não vem de mim mesmo, mas daquele que me enviou". (Jo 7,16).

Beijos Catequisto ;)

Silvana disse...

E que orgulho deve sentir o teu pai pela mente privilegiada que ele criou não é mesmo Edvaldo? Gostei muito do teu texto, já antigo em? 2009!!! mas será sempre atual...parabéns!!!