Inverno…

Caros amigos, podemos considerar o dia de hoje como diferente dos demais: encerramos o mês de junho, bem como concluímos o primeiro semestre do ano da graça do Senhor de 2012. Estamos, se assim podemos considerar, no ponto central do ano: chegamos ao término de sua primeira metade. Equilibramo-nos sobre a sombra do que passou e sobre a luz do que há de vir. Entre o imutável e o mistério. Entre as folhas debruçadas ao chão do outono e os botões de flores a eclodirem na primavera. Estamos no inverno...DSC03451

Junto do mês de junho, que hoje celebramos, recebemos sobre nossos corpos o inverno. Gélido, pálido, brumoso, inanimado. Lançando no céu um jogo de cores, do qual a matiz principal é acinzentada.

E aqui chegamos a um ponto cruciforme: a diferença entre dois invernos. Um, o inverno que, como estação da natureza, fenômeno natural, é acontecimento de todo ano, por alguns meses, devido ao movimento de translação da Terra e seu consequente distanciamento do Sol. E outro, bem outro, é o inverno da alma, tão mais cruel, arrasador, esterilizante...

Um inverno, o do corpo, nos atenta ao outro, o da alma.

Recordo-me que, quando chegava esse tempo do final de junho, minha avó dizia: “Di, essas noites de inverno são as noites mais longas de todo o ano”. Hoje, quando relembramos a sabedoria popular, que ricamente era aprendida com a vida, sentimos o real perigo dessas noites escuras de inverno em nossa alma. Quando nossa alma submerge-se no inverno, não estamos nós na mais escura noite?

Por isso, a ocasião que celebramos hoje é um convite do próprio Cristo, Luz do Mundo, a permanecermos sempre em seu Calor, em seu Convívio. E Ele quer que nosso movimento de Translação deixe de ser propriamente um movimento de idas e vindas, mas que nos aproximemos tanto dEle que cheguemos a nos unirmos a Ele. Contudo, como humanos que somos, algumas coisas nos são exigidas para esse encontro.

A mesma avó me dizia que, coincidentemente, era durante esse tempo das noites mais longas que se dava a época propícia da poda das roseiras. Naquela época, que criança não acharia estranho a lógica do cortar para florir, do perder para ganhar?

Hoje encaramos o mundo de modo diferente, e compreendemos tal lógica. Também nós precisamos de podas, de perdas, de separações, de renúncias, para que possamos nos aproximar mais perfeitamente do Sol da Vida.

É como dizia nosso Pai Vicente, para atingir o Tudo, nada, nada, nada, nada...

DSC03316Ainda que por mais douto que seja o cronista, jamais terá palavras suficientes para descrever tal mistério de amor: o Criador, sol sem ocaso, desejoso do convívio de suas criaturas. Por isso, prefiro colocar-me ao lado de Dom Luciano Mendes de Almeida, que no centro de seu ministério destacava essa simples palavra: Deus é bom.

Tão bom que, após o inverno, concedeu-nos outra estação: a primavera.

Jamais permitamos que as noites invernais tomem conta da alegria primaveril, e sejamos portadores da luz, mensageiros do calor, que é Cristo, para iluminar e abrasar o caminho e corações de tantos irmãos que vivem na tristeza dos invernos da alma, que não conhecem a autêntica alegria, a alegria do cristão. Sigamos o convite do Amado à Amada no Cântico dos Cânticos:

Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha.
Eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções (2, 10)

Caminhemos, ainda no inverno das temperaturas, na alegria da primavera da alma, no doce paradoxo da alegria da cruz, para alegrarmo-nos um dia definitivamente na beatífica primavera do convívio celeste.

Amém.

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