Luiz Inácio, o SUS e o Sírio


A doença do ex



O filósofo Gabriel Marcel, na metade do século XX, lucidamente afirmou que quanto mais a tecnologia avança na vida do homem, mais recua o lugar da reflexão. Não temos espaço para o recolhimento, para o silêncio e, por fim, tornamo-nos monstros do ego, criaturas abomináveis autocriadas pelas mãos que ultimamente só sabem deslizar pelos ipods da vida.

Tudo isso para chegar a um só ponto: no ti ti ti que criaram, a partir das redes (anti) sociais ao redor do aposentado Luiz Inácio, e de sua doença, nacionalmente conhecida. De um lado, os que bradam: “Vai se tratar no SUS”, na outra trincheira, os bolcheviques que gritam: “No Lula ninguém toca. Porque o outro também não o fez?”. E todo esse falatório leva para onde? Para lugar nenhum. É fomentado pelas redes sociais que, até hoje no Brasil, não fizeram politicamente nada de bom.

Vamos jogar as cartas sobre a mesa. E vamos colocar tudo em alvos panos.

Sempre deixei claro que nunca fui amigo de Luiz Inácio, nem tampouco simpatizante. Mas isso não quer dizer que me alegro pela sua enfermidade. Muito pelo contrário: como ser humano, ser criado, ser encarnado, filho do mesmo Deus que eu, desejo sua rápida recuperação. Ninguém merece o mal e, ainda que de vozes dissonantes, quero que Luiz Inácio fique bem.

Mas o que precisamos compreender é um só fato: Luiz Inácio sempre foi sinônimo de contradição. Como costumam fazer na filosofia, podemos dividir sua história em dois períodos: primeiro Lula e segundo Lula. Um será totalmente o oposto de outro. Os demais equívocos entre o metalúrgico e o presidente deixemos de lado para focarmos em um só.


Na campanha presidencial de 2006, Luiz Inácio bradou inequívoco em um dos falaciosos debates televisionados: “o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde”.

E eu, na ocasião, achando que estava ouvindo mal.

Em 2010, o digníssimo presidente foi inaugurar uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS, em Recife. E mais uma vez disse: “esta unidade está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido”. Pois bem, Luiz Inácio, o que o senhor fez quando, depois de algumas horas, teve uma crise de hipertensão na mesma cidade? Internou-se num hospital privado!

E agora, depois de oito anos de seu majestoso governo, e mais um de sua afilhada, o que melhorou no sistema de saúde brasileiro?

Melhorou que Lula agora é tratado no Sírio-Libanês. Onde a diária de um quarto simples custa R$ 750. Já a UTI, por dia, sai em média por R$ 2.133. Do diagnóstico de sua doença, ao início de tratamento, vão correr apenas quatro dias.
Agora, se fosse ao perfeito SUS de Luiz Inácio, uma pessoa com os mesmos sintomas que ele demoraria cerca de 30 dias para ser examinada corretamente, mais 70 para começar a quimioterapia e mais 110 caso necessitasse de radioterapia.

Se há um barulho extra em torno da doença de Lula, é porque não conseguimos compreender mais essa contradição. A saúde pública, no SUS. A saúde da República, no Sírio-Libanes. Aí podemos compreender quando Lula dizia que a saúde beirava a perfeição: a perfeição do Sírio-Libanês.

Não quero fazer piada. Não quero fazer afundar o ex-presidente. Só quero um pouco de coerência na política brasileira. Só um pouco mais de reflexão e ação.

Comentários

Anônimo disse…
Ao contrário de você Edvaldo, eu por um certo tempo, fui eleitora do Lula, aquela esperança de dias melhores para o País, um pouco mais de igualdade entre as pessoas e outras coisas mais. Claro que ao longo dos anos, o Brasil melhorou em algumas coisas, agora somos emergentes rsrs. Mas uma coisa é certa, neste momento, o nosso ex-presidente deve estar sentindo a mesma coisa que todos os doentes de câncer sentem, medo de morrer, medo de sentir dores, medo de deixar os entes queridos e principalmente medo de não merecer o céu. Se ele for cristão católico, acho que o medo de ir pro inferno é o pior de todos, principalmente se a consciência dele não estiver em paz...acho que consciência tranquila não tem cargo nem dinheiro que pague...
Anônimo disse…
Creio que precisamos observar com mais atenção a história de nosso país. Lula é o pai da pátria. O Brasil deve rezar pela restauração da saúde daquele que o fez caminhar a passos largos. Mesmo que ocorra o pior, Lula será imortalizado no bem que fez a este país.
Anônimo disse…
Pai da pátria? Passou faz tempo. Imortalizado? Só se for a desgraça do povo...

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