Ele fez a diferença

O Defensor da Floresta

Desde pouca idade sempre aprendi que se nós temos direitos, por eles devemos prezar e fazê-los valer. Sejam eles quais forem, com a dimensão que tiverem. Recordo-me que diziam serem os direitos uma conquista de tempos de lutas, do suor de muitos, da dedicação de tantos outros e por isso além de buscá-los deveríamos defendê-los como um patrimônio valioso.

E sempre fiquei atento para encontrar alguém que se encaixasse neste perfil que me apresentavam. A procura não foi das mais simples, mas encontrei uma pessoa que deixou suas impressões em nossa história. Houve nos dias atuais um exemplo de garra e de defesa de seus direitos, um homem que marcou o solo brasileiro com seus passos determinados na caminhada em defesa da preservação de sua terra. Este homem que viveu pela causa da Amazônia e por ela morreu tornou-se defensor e ícone da Floresta.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu no coração da Floresta Amazônica, na pequena Xapuri, no Acre, em 15 de dezembro de 1944. Era filho de seringueiro, e com o pai, pelas incursões na mata, aprendeu o mesmo oficio, antes mesmo de aprender a ler e a escrever. Na maioria dos seringais não havia escolas, e os proprietários das grandes terras não tinham a mínima intenção de criá-las. Por isso, só foi alfabetizado aos 20 anos de idade.

Mas isso não se tornou um empecilho para aquele que viria a tornar-se um grande líder regional. Seu primeiro passo foi ingressar na vida sindical, e em 1975 tornou-se secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir daí participou ativamente das lutas dos seringueiros. Realizou os “empates”, as manifestações pacíficas onde os seringueiros protegiam as árvores do desmatamento com seus próprios corpos. Promovia também diversas ações em defesa da terra dos nativos contra a exploração indevida dos latifundiários.

Fundou em 1977 o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em sua cidade natal, e no mesmo ano foi eleito vereador pelo MDB à Câmara Municipal. É neste período que aquele homem, a quem foi negado os estudos para sempre ser submisso ao sistema, sofre as primeiras ameaças de morte. Era o defensor da floresta lutando por seus direitos e incomodando os grandes fazendeiros.
Em 1979 fez da Câmara Municipal um local de debates entre lideranças sindicais, populares e religiosas. Foi por isso acusado de subversão e submetido a duros e violentos interrogatórios, sendo torturado secretamente. Mas as consequências de suas lutas em prol de seu povo e de seus direitos não para por aí. Ainda na época da Ditadura Militar, em 1980, é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros do Acre.

No ano de 1985 liderou o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, foi quando a luta dos seringueiros começou a ganhar repercussão nacional e internacional. Tinha a proposta de unir os interesses dos índios e dos seringueiros em defesa da Floresta Amazônica. Propunha a criação de reservas extrativistas, onde seria preservada as áreas indígenas e de mata, e garantiria a reforma agrária para beneficiar os seringueiros. Ganhou maior projeção quando em 1987 membros do órgão do meio ambiente ligado à ONU visitaram a floresta e constataram a devastação da Amazônia e a expulsão dos seringueiros, feito pelos fazendeiros com dinheiro de projetos financiados por bancos internacionais. Compareceu no Congresso dos Estados Unidos e lá fez mais denúncias. E em um mês os programas de financiamento aos projetos de destruição da floresta foram suspensos.

Isto foi o estopim para que a perseguição direta a Chico Mendes aumentasse consideravelmente. Foi acusado pelos fazendeiros e políticos de prejudicar o progresso do Acre. As ameaças à sua vida aumentavam cada vez mais. Denunciou por várias vezes à polícia o que vinha acontecendo e, mais uma vez, não foi ouvido. Sua intensa luta pela preservação da Amazônia fez com que ele mesmo anunciasse que seria morto. Porém, as autoridades e a imprensa cerraram os seus ouvidos à voz daquele soldado verde.

No fim da tarde do dia 22 de dezembro de 1988 o sol já se fundia com as águas do barrento rio de Xapuri. O antigo seringueiro voltava para casa e visualizava aquele espetáculo da natureza com emoção. Era mais um dia que se encerrava, e caminhava rumo à família. Chegou em casa e, como um guerreiro após mais um dia de luta, tomou nos braços a filha Elenira e abraçou-a como se fosse a última vez. Para ele, essa era uma grande recompensa para tanto cansaço depois de mais um dia de trabalho. Cruzou a cozinha e saiu para se banhar do lado de fora. Bastaram dois passos, e o defensor da floresta veio ao chão, fulminado por dois tiros de escopeta.

Sua vida findara, mas sua luta jamais. Após sua morte, mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o “Comitê Chico Mendes”, exigindo providências quanto a punição deste crime. Em 1990 a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão.

Como Chico Mendes queria, várias reservas extrativistas foram criadas. A primeira surgiu em 1988. Em 2007, já existiam 35 reservas extrativistas – cooperativas para a caça e a pesca e a extração de seringa, castanha, cupuaçu, palmito, óleo de copaíba, madeira certificada, tudo de forma não-predatória.

A partir da morte de Chico Mendes, os empates para a criação de reservas foram diminuindo, até não se fazerem mais. Contudo, muitos sindicalistas ainda continuam defendo a Floresta e lutando por seus direitos e de seu povo, e assim ainda são vítimas por se perfilharem à causa de Chico Mendes. Todos na luta, buscando fazer a diferença, como defensores da Floresta.

Curitiba, 20 de junho de 2010
Edvaldo Betioli Filho

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